Por que perder seu tempo com o Estadual de futebol

Se você se encaixa no perfil comum do morador de Mato Grosso do Sul simpatizante do futebol, provavelmente está agonizando com a proximidade da edição 2017 do Campeonato Estadual, que começa neste domingo (29), com Comercial x Novo, às 16h, no Morenão. Você deve estar pesquisando bares e restaurantes que transmitem os jogos do seu time no Paulista, Carioca, Gaúcho, Mineiro, ou mesmo estudando a possibilidade de assinar o Premiere FC (se já não assinou), a fim de não ser torturado com as partidas de nível técnico duvidoso do torneio local, que serão televisionadas aos domingos e quartas-feira.

Entendo sua angústia, mas, enquanto você não se apaixona por algum clube sul-mato-grossense que o faça ir ao estádio e acompanhar de perto nosso certame, te ofereço CINCO motivos para se deixar envolver pela principal disputa futebolística do Estado. Isso mesmo, tipo lista do Buzzfeed.

1 – A volta do Morenão

Impedido de receber jogos desde setembro de 2014 por recomendação do Ministério Público Estadual (MPE), o Estádio Pedro Pedrossian, ou simplesmente Morenão, volta a ser palco do Sul-mato-grossense de futebol. A princípio, sediará os jogos de Comercial e Operário como mandantes. Para adequar o local às exigências do Estatuto do Torcedor, foram feitos reparos orçados em R$ 150 mil, com recursos do governo estadual. Situado a poucos minutos do Centro, a praça esportiva é de mais fácil acesso que o Jacques da Luz, nas Moreninhas, onde os times da Capital vinham mandando suas partidas. Além da localização, pesa em favor do Morenão o fator história: casa de Colorado e Galo durante seus melhores períodos no cenário nacional; recebeu a Seleção Brasileira; e,mais recentemente, em 2013, presenciou um Portuguesa 4 x 0 Corinthians e viu o Palmeiras levantar a taça de campeão da Série B após golear o Ceará por 4 a 1.

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Arquibancadas foram pintadas e setorizadas (Foto: FFMS)

2 – Os “estrangeiros”

Das doze equipes que brigarão pelo título este ano, seis apostam em treinadores que nunca trabalharam em Mato Grosso do Sul. É o caso de Comercial (com o paulista Márcio Bittencourt); Costa Rica (com o carioca Márcio Máximo); Naviraiense (com o capixaba Rony Aguilar); Operário (com o gaúcho Celso Rodrigues); Sete de Dourados (com o carioca Emanoel Sacramento); e União/ABC (com o baiano Robert). Alguns têm trabalhos destacáveis no currículo, caso de Bittencourt, que comandou o Corinthians campeão brasileiro em 2005 por boa parte do campeonato, e de Rodrigues, que dirigiu a Chapecoense em 2014 e ajudou a tirar a equipe da zona de rebaixamento à Série B nacional daquele ano. Outros, como Robert (aquele mesmo, careca), que nunca treinou time algum, precisam se provar. Vale a pena ver de perto, pelo sucesso ou pelo tombo.

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Márcio Bittencourt durante apresentação do Comercial (Foto: Nelson Corrales/Reprodução/Facebook)

3 – Fator surpresa

Quem não gosta de uma boa surpresinha? Pois nosso Campeonato Estadual costuma proporcionar resultados surpreendentes. Prova disso é que tivemos SEIS campeões diferentes nas últimas dez edições (Águia Negra, Ivinhema, Naviraiense, Comercial, Cene e Sete de Dourados). No Paulista, os dez últimos troféus foram erguidos por quatro times. No Carioca também. Em Minas foram três campeões em dez anos. No Rio Grande do Sul, dois. Quer mais surpresa? Mato Grosso do Sul fez campeões inéditos por quatro anos consecutivos (Coxim-2006, Águia Negra-2007, Ivinhema-2008 e Naviraiense-2009). O último vencedor, Sete de Dourados, também nunca havia ganho o Estadual.

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Sete de Dourados faturou título inédito no ano passado (Foto: Franz Mendes)

4 – Os medalhões

Já que o nível técnico do grosso de nossos jogadores não ajuda, ao menos temos a chance de ver veteranos que já brilharam em algum momento de suas carreiras agora nos gramados de Mato Grosso do Sul. O Operário terá, pelo segundo ano seguido, Rodrigo Gral, às vésperas de completar 40 anos. O atacante revelado pelo Grêmio tem passagens pela base da Seleção Brasileira e é ídolo da Chapecoense, pela qual fez parte das campanhas de acesso às Séries B e A do Brasileirão. Já o Sete de Dourados anunciou o uruguaio Acosta, de 40 anos, caso avance a segunda fase do campeonato – antes, ele disputa a Série A3 do Paulista pelo Taboão da Serra. Também atacante, o atleta se destacou pelo Náutico em 2007 e foi para o Corinthians no ano seguinte para disputar a Segundona com o time paulista.

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Rodrigo Gral em ação pelo Operário (Foto: Gazeta MS)

5 – Boas risadas

Jogadores medíocres, em gramados irregulares, diante de públicos ínfimos. Combinação perfeita para jogadas mal ensaiadas, furadas esdrúxulas, chutes de média distância que mais parecem tiros de meta, erros de passe triviais, goleiros engolindo frangos homéricos, caneladas, espanadas e muito, mas muito bico e chutão para o alto. Tudo isso rodada sim, rodada também. Se você não torce para nenhum time local (pois, se torce, os lances acima protagonizados por atletas do seu clube de coração te causariam profunda irritação), procure não levar a sério e divirta-se com as jogadas hilárias que só um campeonato de baixíssimo nível técnico como o Sul-mato-grossense pode proporcionar.

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Sempre sorridente Neneca, da comissão técnica do Operário (Foto: Reprodução/Facebook)

*Atualizada às 15h de 27/01 devido a mudanças (mais?) na tabela do campeonato.

Que honra foi te ver de perto, Chape

A dois metros do ponto de ônibus em que eu estava havia um varal com uma dezena de filtros dos sonhos. Bati o olho e entendi tudo. Hoje, mais de dois meses depois, a cena parece até premonitória. Parece não fazer sentido. Hoje, lembro da imagem e já não entendo mais nada.

Era uma tarde ensolarada de setembro, em Chapecó. Eu voltava pro Centro depois de comprar meu ingresso pra Chapecoense x Coritiba, na Arena Condá, pelo Brasileirão. Incluí a cidade do oeste catarinense no meu mochilão boleiro pelo Sul porque me encantava com a mística da Chape, como todos os que amam futebol no Brasil. Queria ver de perto como os 200 mil habitantes do município abraçaram e ergueram esse clube da Série D para a elite nacional em cinco anos.

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Fotos: Jones Mário

Vi pessoas orgulhosas de seu time fazendo frente aos grandes do futebol brasileiro e sul-americano. Era fácil encontrar o escudo da Chape nas lojas, restaurantes, bares, carros, camisetas. Tudo.

Parei num boteco da Avenida Getúlio Vargas na tarde do dia anterior ao jogo e vi o professor Caio Júnior caminhando na rua, com uma calça do Barcelona e uma mulher ao lado. Ninguém o incomodava. Ele parecia em casa. Parecia realizado.

Na manhã do jogo vi excursões de crianças e de idosos a fim de acompanhar o alviverde catarinense na Arena Condá. Vi uma torcida aprendendo a se acostumar com os feitos de seu time. Cada vez mais apaixonada e fiel. Cada vez menos influenciada pelos grandes de Porto Alegre, Grêmio e Internacional. Cada vez mais legítima.

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Que honra foi te ver jogar, Chape. E tão de perto. Que honra foi ver Kempes marcar, de cabeça, o gol da vitória sobre o Coxa naquela manhã de domingo. Que privilégio foi testemunhar as defesas de Danilo, que garantiram os três pontos naquele dia. Que honra conferir como Cleber Santana regia aquele time com seus passes precisos e sua visão de jogo.

Difícil acreditar, difícil de digerir. Jogadores e comissão técnica se foram. Os sonhos de Chapecó não.