Apostas, improvisos, mudanças e até Palmeiras: a eliminação do Operário

A cortina de fumaça criada pelos resultados e pela liderança obtida ao fim da primeira fase escondeu o desempenho fraco do Operário durante praticamente todos os jogos do Campeonato Estadual.

Quem olhou apenas para a tabela após 11 rodadas esperava um Galo novamente candidato ao título. Aquele que se atentou à performance do time em campo via sinais de uma queda precoce.

A eliminação do Operário nas quartas de final, após derrota e empate com o Aquidauanense, tem muito a ver com outra queda.

Na goleada para o Botafogo-PB, que tirou o Galo da Copa do Brasil ainda na primeira fase, algumas das convicções do técnico Arilson Costa foram escancaradas. A começar pela escalação.

Miracema, o homem de confiança

O atacante Thiago Miracema tinha a plena confiança do treinador até a partida pela competição nacional. Uma cotovelada flagrada pelo árbitro e punida com expulsão ainda no primeiro tempo poderia destruir todo esse crédito.

Não destruiu. Arilson bancou o jogador. Miracema foi poupado do jogo seguinte à eliminação, uma vitória nada convincente sobre o Novo, e voltou ao time titular em cinco dos últimos seis jogos do Galo na primeira fase. O atacante ficou de fora somente na 11ª rodada, contra o ABC.

Thiago Miracema retornou para a equipe titular nos dois jogos das quartas de final. Na volta, quando o Operário precisava vencer para avançar e diante do torcedor que tanto protestou contra sua presença no time, foi outra vez expulso na etapa inicial pelo mesmo motivo que o tirou de campo na partida pela Copa do Brasil.

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Thiago Miracema foi bancado por Arilson Costa durante todo o Estadual (Foto: Álvaro Rezende/Correio do Estado)

Eduardo Arroz, o displicente

Outro que também teve papel importante nas duas quedas do Galo foi o volante Eduardo Arroz. E aqui podemos questionar seu retorno ao Operário, visto que ele foi um dos símbolos de uma outra eliminação, em 2017, nas semifinais do Estadual, para o Corumbaense. A postura “banana” da equipe naquela partida ficou marcada pela torcida.

Arroz teve atuação lamentável diante do Botafogo-PB. Os meio-campistas do Belo contavam com marcação frouxa e espaço de sobra para criar e se movimentar.

O volante seguiu como titular até sofrer uma lesão. Ficou de fora por seis jogos. Voltou a ser relacionado no jogo de volta das quartas de final e entrou no segundo tempo.

O lance que origina o gol do Aquidauanense sai de um erro de Eduardo Arroz. Ele tenta um lançamento, cai e pede falta.

Arroz fazia a lateral-direita nesse momento do jogo. Após o erro, ele não volta para a defesa. Fica reclamando falta com assistente e quarto árbitro. Baiano recebe a bola no espaço que o volante deveria ocupar, chuta e marca.

Arilson Costa, o mau apostador

A intenção aqui não é pintar somente Miracema e Arroz como vilões. Há uma explicação para as atuações limitadas e erros dos dois. A justificativa atende pelo nome de Arilson Costa, que teimou em apostar na dupla.

As principais qualidades de Thiago Miracema são velocidade e vigor físico. Miracema se movimenta bem pelos lados do campo, faz pressão na saída de bola e costuma ganhar do adversário na corrida.

Mas o professor se manteve convicto em escalar Thiago Miracema centralizado no ataque. Talvez porque funcionou na estreia, contra o Corumbaense, quando o atacante faz o pivô na área e assiste Fernandinho para o segundo gol da vitória. Depois disso, não funcionou mais.

Arilson declarou em entrevistas anteriores que se espelha em Felipão, que foi seu treinador no Grêmio e no Palmeiras. A admiração pode ajudar a elucidar a forma como o Operário se comportou durante a primeira fase.

Campeão brasileiro em 2018, Felipão tinha Deyverson para brigar pela bola aérea após aquela esticada que vem do campo defensivo.

Arilson tinha Miracema, alvo de inúmeros lançamentos dos zagueiros e laterais. Mas o atacante do Galo só se assemelha ao do Palmeiras no temperamento e não consegue ter o mesmo aproveitamento nas disputas pelo alto.

Deyverson subia, dava aquela casquinha e os atletas de velocidade do Alviverde aproveitavam para definir rapidamente.

Thiago Miracema subia e não ganhava de quase ninguém pelo alto. Não tinha casquinha. Na ânsia de tentar se impor à força, acabava distribuindo cotoveladas.

Jones, atacante de maior porte físico e com características de área, passou praticamente todo o Estadual no banco de reservas. Ele terminou a competição com os mesmos três gols de Miracema.

Matheus Iacovelli também tem um perfil mais “nove” que Miracema. Chegou no meio do campeonato, jogou uma partida e não apareceu mais.

Agora, Eduardo Arroz. Em um campeonato nivelado por baixo, o veterano compensa sua lentidão e falta de força na marcação com bom posicionamento e excelente passe.

Foi equivocada a escolha por Eduardo Arroz para vestir a camisa 5 e fazer a contenção no duelo com o Botafogo-PB, um time que vinha invicto e que é bastante superior tecnicamente em relação ao Galo.

Poderia funcionar se Arroz tivesse a companhia de um volante mais marcador, mas seu companheiro era Alberto, que também é lento e de pouca pegada.

No segundo tempo da goleada paraibana, Gerson é substituído e Eduardo Arroz vira lateral-esquerdo. Arilson improvisaria o volante novamente nesta posição no jogo da volta com o Aquidauanense. Claro que não deu certo.

Arroz ficou um tempo na lateral-esquerda contra o Azulão. Depois inverteu com Da Silva e foi parar na direita. Foi quando errou um lançamento, caiu, esbravejou, não voltou e Baiano aproveitou o espaço deixado por ele para marcar.

O improviso e o troca-troca

Como vemos, Arilson Costa é adepto do improviso. E aqui ele se opõe ao que pensa seu ídolo Felipão, que evita escalar jogador fora de posição.

Ao longo do Campeonato Estadual, vimos também o meio-campista Fernandinho virar atacante pelo lado direito e o zagueiro Bruno Centeno se tornar volante.

Mas o principal erro de Arilson Costa até aqui foram as frenéticas mudanças na escalação titular. Em 14 jogos no ano, o treinador utilizou 14 formações diferentes.

Somadas as alterações entre uma partida e outra, foram 52 modificações. As forçadas por lesão foram minoria.

Se Arilson tentou colocar em prática um rodízio no elenco, falhou ao sequer encontrar um time.

As alterações em série podem ajudar a explicar também as más atuações. Com pouco tempo para treinar, o ideal seria a repetição dos titulares, para assimilação mais rápida de uma proposta de jogo e criar entrosamento.

Em resumo, o elenco do Operário oferece alternativas. Há bons jogadores e opções com diferentes perfis para distintas ideias. Faltou repertório a Arilson Costa, que preferiu se limitar às ligações diretas e jogadas de bola parada.

Como resultado, o Galo volta a ter apenas o Estadual para disputar em 2020. Se manter na Série D do Brasileiro e na Copa do Brasil do ano que vem era o objetivo mais falado pelo gerente de futebol Rodrigo Grahl em entrevistas.

Resta ainda a Série D deste ano, que começa daqui um mês. E a contar pelo que vimos no Estadual, a participação do Operário na competição promete ser curta.

A resposta do professor

Arilson Costa, técnico do Operário, procurou o blogueiro aqui depois de ler a postagem anterior, na qual faço minha análise da eliminação do Galo na Copa do Brasil.

Não estava feliz, afinal, disse que ele foi um tanto inocente. Mas não foi desrespeitoso ou grosseiro. Apenas pontuou algumas coisas.

Disse que o time não foi a campo com o mesmo comportamento adotado nos jogos do Campeonato Estadual, ainda que os titulares escolhidos tenham sido os mesmos que vêm jogando o Sul-mato-grossense.

Arilson falou que queria surpreender o Botafogo-PB ao utilizar marcação alta, com o atacante Thiago Miracema fazendo pressão na saída de bola. Segundo ele, o Belo não esperava essa atitude e não havia enfrentado equipes que jogam assim pelo Campeonato Paraibano.

Miracema foi expulso e seu plano foi pro saco.

O professor disse ainda que seu time no segundo tempo, com a entrada de Emerson Santos na vaga de Jean Carlo, defendeu melhor que no primeiro.

Alegou que a opção por Pedro Hulk no lugar de Gerson foi tomada não por desespero, mas porque o lateral-esquerdo precisava ser poupado, pois já tinha sido escalado contrariando recomendação médica.

Hulk, aliás, nutre esperanças no treinador. Arilson Costa acredita que ele pode resolver uma partida com sua força física e chute potente.

Questionado sobre a opção por Eduardo Arroz como primeiro volante, o comandante justificou que ele é titular e vinha jogando o Estadual.

Sobre o centroavante Jones, o professor do Operário garante que ele está machucado e não será sequer relacionado para o duelo com o Novo, neste domingo (17). Duas contraturas musculares.

Arilson disse que Jones só foi para o banco contra o Belo para o caso de o momento do jogo pedir alguém com suas características, mas que entraria no sacrifício.

O técnico reiterou que estudou bastante o Botafogo-PB.

Da minha parte, lamentei não ter tido a oportunidade de questioná-lo sobre o que vi da partida. Estava nas cabines de imprensa, por determinação dos responsáveis pela organização da peleja.

Agradeci pela ligação e nos despedimos. Pouco depois, Arilson viu minha foto no avatar do WhatsApp e me reconheceu dos dias de jogos ou treinos. Tirou sarro e foi gentil novamente.

O dedo do professor na eliminação do Operário da Copa do Brasil

O blogueiro aqui não quer pedir a cabeça de Arilson Costa após a eliminação do Operário da Copa do Brasil, sacramentada na quarta-feira (13), no Morenão, após sacolada de 4 a 1 para o Botafogo-PB.

A queda era esperada. O favoritismo era todo dos paraibanos, que só não subiram para a Série B no ano passado por um capricho do destino.

O time do técnico Evaristo Piza – no Botafogo-PB há nove meses – joga a Série C, sonho de consumo do cambaleante futebol sul-mato-grossense, desde 2014. Um ano antes, o Belo foi campeão da Série D, massacrante realidade do futebol sul-mato-grossense.

O Botafogo-PB brigou para subir ainda em 2016, quando chegou às quartas de final. Se acomodou e quase voltou à última divisão nacional em 2017. Mas caiu em si e novamente lutou pelo acesso no ano passado.

Todos os ventos sopravam à favor do clube nordestino, que, quase ia me esquecendo, está invicto nesta temporada.

Isto posto, o Operário reunia condições de desempenhar um papel melhor. Não o fez porque Arilson foi um tanto inocente.

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Arilson Costa, comandante do Galo, durante treinamento (Foto: Anderson Ramos/Divulgação OFC)

O treinador do Galo já havia adiantado que não mudaria a postura de seu time e apostou nos 11 que vinham jogando o capenga Campeonato Estadual.

A dupla de zaga formada por Rodrigo Arroz e André Paulino é pesada e talvez funcionaria se o Botafogo-PB tivesse um camisa 9 de ofício, postado dentro da área.

Mas Nando não é isso. Tanto que era visto na intermediária, puxando a marcação para a infiltração dos ligeiros Dico, Clayton e Marcus Vinicius.

O temperamental volante Eduardo Arroz teve atuação lamentável, mas não exclusivamente por deficiência técnica. Arroz não é exatamente um jogador de marcação forte, tampouco vigoroso.

Seu companheiro de meio-campo, Alberto, também não tem esse perfil. Combinado com a pouca participação do camisa dez Jean Carlo na recomposição defensiva, sobrava espaço para o organizado Botafogo-PB trocar passes e encontrar brechas no ataque.

O primeiro gol do Belo, que nasce de uma roubada de bola no lado direito ofensivo e termina com a finalização de Dico no flanco esquerdo, é prova da frouxidão defensiva do Galo.

A bola circula por toda a intermediária sem nenhum operariano para oferecer resistência. A zaga está rendida quando Dico desce em velocidade e livre de marcação.

Natan, volante com mais pegada e mais pulmão, entrou só depois do terceiro gol botafoguense, na vaga de Jorginho.

A expulsão do atacante Thiago Miracema, ainda na primeira etapa, não pode ser colocada na conta de Arilson. O camisa nove tem 31 anos. Não é nenhum garoto. Nada justifica sua irresponsabilidade no lance da cotovelada em Rogério.

Mas a opção do técnico por Miracema deve ser questionada. A pressão que o jogador faz na saída de bola adversária, um de seus pontos fortes, só faria sentido se o Galo tivesse condição técnica e coletiva de adiantar sua marcação e controlar as ações do jogo. Funciona no Estadual, nivelado por baixo, mas não contra um time nitidamente superior.

No domingo (10), na vitória por 3 a 0 sobre a Serc, o centroavante Jones sugeriu que poderia ser útil para o duelo pela Copa do Brasil.

Diferente de Miracema, o jogador segura melhor a bola no campo ofensivo e ganha disputas pelo alto, duas qualidades que poderiam desequilibrar à favor do clube campo-grandense, dadas as limitadas chances do Operário vencer jogando de pé em pé.

Mesmo sem um banco de reservas de encher os olhos, Arilson mexeu mal.

Jean Carlo saiu para a entrada de Emerson Santos, talvez pensando na velocidade e no bom “um contra um” do reserva. Mas, com um a menos, Santos precisava se desdobrar na marcação e sequer apareceu nas poucas vezes em que o Galo tinha a bola.

A opção por Pedro Hulk no lugar do lateral-esquerdo Gerson só pode ser entendida sob a ótica do desespero. Eduardo Arroz já vinha mal em sua posição e foi deslocado para o espaço antes ocupado pelo ala.

Ainda fora de forma e sem ritmo de jogo, o folclórico Hulk foi presa fácil para os marcadores do Belo.

A participação dos times de Mato Grosso do Sul na Copa do Brasil costuma ser breve. O ranking de federações da CBF mostra que o futebol do Estado só está na frente de Tocantins, Espírito Santo, Rondônia, Amapá e Roraima.

As campanhas de Naviraiense (2013) e de Comercial (1994!) são raríssimas exceções à regra. O futebol pobre rege Mato Grosso do Sul há pelo menos 25 anos. Para se destacar é preciso deixar a arrogância de lado e assumir o papel que nos cabe, com humildade e cautela.

Comercial joga um tempo só e vence; Tilico e Arilson resenham no túnel

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Danilo com a bola no pé (Foto: Jones Mário)

De camisa 8 nas costas, Danilo fez o primeiro gol do Campeonato Estadual 2019. O volante comercialino recebeu do platinado atacante Hyago na entrada da área, cortou pra direita e bateu no canto esquerdo de Renan. O goleiro da Serc poderia chegar, mas não chegou.

1 a 0 no Estádio Morenão, que recebeu 375 torcedores na tarde quente deste sábado (19).

O Comercial recuou e irritou o goleiro Rodolfo. De volta à esquadra vermelha, o homem das luvas chamava a atenção do técnico Mário Tilico. Pedia para o time sair de trás. Tilico concordou.

O Colorado aumentaria o placar aos 44 minutos, com o atacante Léo Mineiro, que sofreu e converteu pênalti.

Mas o Comercial não voltou pro segundo tempo. Pra sorte dos comercialinos, a Serc também não voltou.

2 a 0, placar suficiente para o Colorado dormir na liderança do torneio.

Destaque positivo para o volante Danilo, com bom passe e boa chegada.

Os meia-acatantes Hyago e Eduardo França, que disputaram o Estadual passado e seguiram no Comercial, também foram bem. O primeiro foi bastante participativo e soube colocar a bola no chão quando preciso. O segundo imprimiu velocidade e profundidade no lado direito do ataque.

Do lado chapadense, o atacante Billy deu trabalho para a zaga colorada. Mesmo franzino, mostrou presença de área.

RESENHA
O técnico do Operário Arilson Costa acompanhou a partida. Ao fim, se encontrou com Tilico no túnel que dá acesso ao vestiário do clube mandante.

O bate-papo foi descontraído. Arilson elogiou a boa forma do treinador comercialino. Tilico quis marcar um novo encontro, mas citou a agenda apertada de jogos.

A troca de ideias deu indícios de que, ao menos fora de campo, o clássico Comerário deste ano promete mais cordialidade. Ao contrário do último, que foi parar nas manchetes internacionais por causa da agressão ao gandula colorado.

O Comercial volta a campo nesta quarta-feira (23), contra o União/ABC, às 20h30, novamente no Morenão.

ABC que bateu o Costa Rica por 1 a 0, gol de Everton, também no sábado, no Estádio das Moreninhas.

Em Aquidauana, o Operário de Dourados deu mais trabalho do que se imaginava, mas perdeu para o Aquidauanense por 3 a 2, no Noroeste, completando a jornada do Estadual neste sábado. Agostinho fez os dois gols do Tigre; Uélison Santana e Rodrigo (duas vezes) marcaram para o Azulão.