Gandula de Carlos Germano por eternos 30 minutos

GERMANO (2)

Manhã de sábado. Uma chuva fria e chata insistia em cair. O mau tempo ajudou a afastar o campo-grandense do Morenão, que recebia um amistoso beneficente. De um lado, Washington “Coração Valente” e Jorge Wagner comandavam os que vestiam vermelho. De outro, Túlio Maravilha, Ronaldão e Carlos Germano estrelavam o time azul. Vascaíno, eu só queria saber mesmo era de Germano, de camisa verde, número 22.

Suspeitei que o portão 20 do Morenão, o da imprensa, estaria aberto. Acertei. Agarrei o guarda-chuva, uma caneta e meu caderno dez matérias com motivos cruz-maltinos. Entrei no estádio e me abriguei abaixo da arquibancada do placar nos primeiros minutos. A água continuava caindo. Germano defendia a meta do Paliteiro, no lado oposto. De onde estava, vi o goleiro do maior título da história do Vasco – a Copa Libertadores de 1998 – sofrer o primeiro gol da peleja.

A chuva deu brecha e decidi que era hora de me aproximar do ídolo. Dei a volta no campo pela faixa de grama que antecede o fosso. Dois minutos depois e estava a cinco metros de Germano.

Alguém finalizou e a pelota passou à sua esquerda. Ela rolou irregular e parou antes da pista que cerca as quatro linhas. Fui buscá-la e, quando me dei conta, era gandula de Carlos Germano. Fiquei meio bobo, meio honrado. A aventura durou uns 30 minutos.

Germano pediu um copo d’água. O goleiro reserva foi levar. O time azul atacava e senti que poderia chamar a atenção do ídolo naquele momento.

-Germanô! Germano, por favor…

Foi o que eu disse, apontando para a caneta e o caderno. Achei que seria brega dizer: “Me dá um autógrafo”. Ele fez que viria em minha direção, olhou para trás e viu os caras de vermelho em contra-ataque.

-Espera aí. Deixa só eu pegar essa bola.

E pegou. Chute rasteiro no contrapé e Germano buscou fácil. Repôs com o zagueiro e sua equipe tratou de sair para o jogo. Germano se voltou para mim.

-Aguenta aí. Tá acabando o primeiro tempo e já falo com você. E nosso Vasco?

Nosso Vasco.

-Tá precisando de você, pô. Tá faltando você lá.

O goleiro reserva estava próximo e pensou que eu estivesse criticando o atual arqueiro vascaíno, Martín Silva. Eu não estava. Germano acabou achando a mesma coisa.

-O único que presta no time é o goleiro.

A crítica em tom irônico me fez rir e concordar com meu ídolo.

Washington cabeceou uma bola para defesa de Germano. Eu quis gritar: “Aqui tem goleiro!”, mas me segurei. Uma outra finalização passou à direita do gol e foi parar na pista. Fui buscar e deixei próxima da meta. Germano viu, fez sinal de positivo. A sensação meio bobo/meio honrado voltara.

Trilou o apito para o fim do primeiro tempo. Fui na direção de Germano e ele se aproximou. Nos encontramos sobre a linha de fundo. Enquanto ele tirava as luvas, eu observava. Quis ajudar, mas não precisou. Entreguei-lhe caneta e caderno. Ele titubeou.

-Assino onde? Na capa mesmo?

-Sim, sim. No espaço em branco.

-Será que não vai sair a tinta?

-Não, pô. Vou guardar bem.

Assinou, com direito a “saudações vascaínas”. Cumprimentei Germano, meio sem jeito. Certo de que nosso encontro terminaria ali, agradeci por tudo que fez pelo nosso Vasco, dentro e fora de campo. Tiramos uma selfie.

Para minha surpresa, Germano puxou assunto. Falou que o Vasco não merecia “isso”. Entendi que “isso” eram os três rebaixamentos em oito anos. Insisti que faltava alguém como ele dentro do clube, um cara vencedor, e perguntei porque ele não seguiu como treinador de goleiros, função que exercia até o retorno de Eurico Miranda à presidência. Ele me explicou que, com a troca no comando, sobrou para todo mundo.

-Por mim, eu não sairia nunca do Vasco.

Aquilo me arrepiou.

Germano seguiu e lamentou a rixa política no clube. Afirmou que Eurico se preocupa em perpetuar-se no Vasco apenas por benefício próprio. Protestou contra a aparelhagem operada pelo mandatário, designando filhos seus para tomar conta de setores vitais. Demonstrou apoio à candidatura do ex-médico do Gigante, Alexandre Campello, que deve enfrentar Eurico em eleição no fim do ano.

Sereno, atencioso, olhos nos olhos. Eu estava diante de um cara formado no Vasco, com mais de 600 jogos pelo clube, campeão brasileiro e continental com o Cruz-Maltino, vice-campeão mundial pela seleção brasileira em 1998. Entenderia se ele fosse arrogante. Além de não ser, esbanjou o respeito que só um verdadeiro ídolo é capaz de emanar.

Germano é um cara ciente de seu tamanho na história do clube e de tudo o que representa. Ele é gigante. Camisa um da era mais gloriosa do Vasco. Nem por isso se sente superior ao torcedor que se esgoela na arquibancada de São Januário ou na frente da tevê.

Eu estava atrasado e, se não tivesse forçado a despedida, talvez continuássemos conversando por muito mais tempo. Agradeci Germano novamente e segui meu rumo.

Pode parecer besteira, mas o tempo abriu e fez sol enquanto em caminhava para deixar o Morenão…

Wilson come a bola no Comerário

Wilson dos Santos Januário, 23 anos, alagoano. Comeu a bola no Comerário, mas a fome só bateu no segundo tempo.

O camisa 7 operariano até tentou, ciscou e insistiu na etapa inicial. Nada feito. Parava na forte marcação comercialina. A pressão estava ali logo que a bola chegava em seus pés. O drible curto não saía. O disparo em velocidade empacava.

Jeferson Querino, volante do Comercial já apelidado de Mascherano, foi expulso no fim dos primeiros 45 minutos.

Wilson agradeceu a todos os Santos, inclusive a São Januário. Com um a menos do outro lado, o espaço que lhe faltava agora sobrava.

Minuto inicial do segundo tempo e o lateral-esquerdo Luiz Jorge encontra Wilson nas costas da zaga colorada. O alagoano escora de cabeça e Leandro Diniz completa, de peixinho. A torcida operariana gosta e sabe que, caiu na rede, é peixe.

Aos 11, Wilson inverte a jogada da direita para esquerda ao camisa 11, Igor, que vê a ultrapassagem de Eduardo Arroz e dá o passe. O volante cruza rasteiro e Wilson aparece para terminar o que começou.

Para fechar a conta, Wilson desempaca o disparo em velocidade pelo meio, rasga a zaga comercialina e, com toque de classe, encobre o goleiro Zé Augusto. Finalização perfeita para um lançamento magistral de Igor.

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Golaço de Wilson encobrindo Zé Augusto (Foto: Marcelo Ezoe)

O gol de Rodrigo Ost em um chute preciso de perna direita – que não é a boa – serviu para mostrar que também há brilho do lado colorado.

Mas o Galo tinha Wilson que, fominha, tirou o alvinegro do jejum de nove anos sem vencer o maior rival.

Agora a sina se inverte: é o Comercial quem não triunfa sobre o Operário há um bom tempo – desde 2011.

Do estado onde Zumbi dos Palmares resistiu e lutou para libertar seus iguais da escravidão veio Wilson dos Santos Januário, que, como um mártir, libertou a torcida operariana do longo período sem vitórias no clássico.

Resultados do fim de semana

Sábado (18)
União/ABC 2 x 2 Chapadão – Grupo A
Corumbaense 1 x 1 Naviraiense – Grupo B

Domingo (19)
Urso 1 x 1 Sete de Setembro – Grupo B
Operário 3 x 1 Comercial – Grupo A
Costa Rica 1 x 2 Novo – Grupo A
Águia Negra 2 x 0 Ivinhema – Grupo B

Classificação do Sul-mato-grossense 2017

Grupo A P J V GP SG
1º Operário  9  4  3 10  7
2º Chapadão  6  4  1  7  1
3º União/ABC  5  4  1  7  -3
4º Costa Rica  4  4  1  6  -1
5º Comercial  4  4  1  6  -2
6º Novo  4  4  1  5  -2
Grupo B P J V GP SG
1º Corumbaense  7  3  2  4  2
2º Águia Negra  6  3  2  4  2
3º Urso  4  3  1  3  0
4º Ivinhema  3  3  1  2  -2
5º Naviraiense 2  3  0  3  -1
5º Sete de Dourados  2  3  0  3  -1

“A” de Equilíbrio

Equilíbrio é a palavra que resume as primeiras três rodadas no Grupo A do “Sul-mato-grossensezão” 2017. Fora o Novo, que, pelo futebol mostrado até aqui, flerta com o primeiro rebaixamento de sua história, ninguém é de ninguém.

Comecemos pelo Comercial. Jogou bola e convenceu na estreia com vitória sobre o Novo; falhou muito e perdeu para Chapadão na rodada seguinte; e neste domingo (12) precisou transpirar bastante para fazer um golzinho no União/ABC, pior defesa do campeonato, e empatar o jogo.

O Operário teve início avassalador, goleando o União/ABC na primeira e passando por cima do Novo na segunda. Na hora de engatar a terceira, engasgou no Laertão e perdeu para o Costa Rica. Banho de água fria no ainda líder Galo.

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Lance de Costa Rica 1 x 0 Operário (Foto: Raul Rodrigues/Operário FC)

Chapadão arrancou um empate em Costa Rica e virou pra cima do Comercial. No momento de embalar, tropeçou no Novo – ainda que fora de casa. Resultado? Perdeu boa chance de encerrar a rodada 3 na liderança do grupo.

A equipe do União/ABC talvez seja a que mais surpreendeu até agora. A sacolada sofrida diante do Operário na estreia acordou a garotada do técnico Robert, que protagonizou uma virada épica sobre Costa Rica na segunda rodada e impôs dificuldade para o Comercial na terceira. Se a prioridade é seguir na “A”, está na meta (por enquanto).

Por fim, Costa Rica mostrou força batendo o melhor time da chave depois de empatar em casa com Chapadão e de sofrer aquela derrota bizarra para o União/ABC. Saiu da lanterna para embolar a tabela de classificação.

A próxima rodada promete definir melhor quem briga pelo que na Chave A.

Operário e Comercial se enfrentam em clássico e é aquela história: jogo bom para instaurar crise ou acalmar os ânimos da exigente torcida comercialina. Bom também para acender o sinal amarelo no Galo ou derrubar um tabu de nove anos sem vencer o rival.

O União/ABC tentará entrar no G-4, mas precisa derrubar a invencibilidade do vice-líder Chapadão. O Novo tentará sair da lanterna, mas precisa vencer seu primeiro jogo fora de Campo Grande, contra o Costa Rica.

Segue o equilíbrio ou a balança pende para algum lado? Aposto na primeira opção, mas devagar com o andor.

PS: No sábado (11), o Sete de Dourados foi eliminado na fase preliminar da Copa Verde depois de sofrer um 3 a 0 do Ceilândia-DF, no jogo de volta, no Distrito Federal. Onde teria chances de ir mais longe, não foi. Vai entender…

Resultados do fim de semana

Sábado (11)
Novo 1 x 1 Chapadão – Grupo A

Domingo (12)
Comercial 1 x 1 União/ABC – Grupo A
Costa Rica 1 x 0 Operário – Grupo A
Corumbaense 1 x 0 Águia Negra – Grupo B
Urso 0 x 1 Ivinhema – Grupo B

Classificação do Sul-mato-grossense 2017

Grupo A P J V GP SG
1º Operário  6  3  2 7  5
2º Chapadão  5  3  1  5  1
3º Comercial  4  3  1  5  0
3º Costa Rica  4  3  1  5  0
5º União/ABC  4  3  1  5  -3
6º Novo  1  3  0  3  -3

 

Grupo B P J V GP SG
1º Corumbaense  6  2  2  3  2
2º Ivinhema  3  2  1  2  0
3º Naviraiense  1  1  0  1  0
3º Sete de Dourados  1  1  0  1  0
5º Águia Negra 0  1  0  0  -1
5º Urso  0  1  0  0  -1

Tempo extra

Imagine o seguinte: você e mais onze pessoas são candidatos a uma vaga de emprego e precisam passar por uma prova. Porém, dois desses concorrentes ao cargo – e nenhum é você – terão duas semanas a mais de preparação para o teste. Justo?

Queira ou não, Águia Negra e Urso só estreiam no Campeonato Sul-mato-grossense neste domingo (12) – duas semanas depois de Comercial 2 x 1 Novo, partida que abriu o torneio este ano. Queira ou não, são 14 dias a mais de treinamentos e aperfeiçoamento físico para os times de Rio Brilhante e Mundo Novo.

Águia e Urso começariam o Estadual no mesmo dia de Comercial 2 x 1 Novo. Era o que previa a tabela da Federação em dezembro do ano passado. De lá para cá, foram inúmeras mudanças na programação, por falta de laudos de estádios e ajustes devido a participação de Sete e Comercial em Copa do Brasil e Copa Verde.

A culpa passa pela demora dos clubes para regularizar suas casas, pela passividade dos times que estão em dia com suas obrigações em não exigir de seus adversários o mesmo rigor e também pela inércia da Federação de futebol, que dificilmente pune seus associados.

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Urso de Mundo Novo durante amistoso
(Foto: Reprodução/www.cesargaleano.com)

Tininho, técnico do Águia, e Jandaia Caetano, treinador do Urso, não têm nada a ver com a paçoca e aproveitaram o tempo extra para acertar o futebol de suas equipes. O time de Mundo Novo, que não é bobo, aproveitou o calendário a favor para disputar três amistosos – bastante para a curta pré-temporada da maioria dos clubes do Estado.

Contando que as comissões técnicas fizeram o dever de casa e os atletas se dedicaram, não deve faltar perna para Águia Negra e Urso neste domingo.

Jogos do fim de semana pelo Estadual 2017

Sábado (11)
Novo x Chapadão – 17h, no Morenão – 3ª rodada do Grupo A

Domingo (12)
Corumbaense x Águia Negra – 16h, no Arthur Marinho – 1ª rodada do Grupo B
Urso x Ivinhema – 16h, na Toca do Urso – 1ªrodada do Grupo B
Comercial x União/ABC – 16h, no Morenão – 3ª rodada do Grupo A
Costa Rica x Operário – 16h, no Laertão – 3ª rodada do Grupo A

OBS: A Toca do Urso não teve liberação confirmada até o fechamento deste texto, ou seja, Urso x Ivinhema pode ser adiado novamente ou mudar de local.

Pintando o Sete

Não existe time grande em Mato Grosso do Sul. Não mais. Existem times com tradição, quase sempre traduzida em títulos, e times em busca dos feitos que construirão sua história. O Sete de Setembro, de Dourados, se encaixa neste segundo perfil, mas ousa rasurar a linha que o separa do primeiro.

Em 2016, ano de seu primeiro título estadual, o Sete se tornou o primeiro time sul-mato-grossense a avançar para a segunda fase do Campeonato Brasileiro Série D – após oito edições do torneio. Caiu no estágio seguinte, diante do Fluminense de Feira-BA.

Ontem, quarta-feira (8), quiseram os deuses do futebol que, em sua primeira participação, o SETE protagonizasse a SÉTIMA classificação de um sul-mato-grossense a segunda fase da Copa do Brasil – em sua 29ª edição. Quiseram os deuses, mas quis também o zagueiro Juan, autor do gol da vitória pelo placar mínimo sobre o River-PI, diante de 2,5 mil torcedores no Douradão.

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Zagueiro Juan, autor do gol sobre o River-PI (Foto: Gazeta MS)

Em 17 confrontos nesta noite de estreia da Copa, o Sete e mais seis equipes mandantes, ou seja, times piores ranqueados que seus adversários, avançaram. Fosse no ano passado, o clube douradense precisaria jogar o duelo de volta no Piauí e a chance de passar de fase diminuiria.

O Sete agora encara o Sport, novamente em jogo único, com mando de campo a ser sorteado. Independente do local, a pressão recai sobre os recifenses, obrigados a provar porque estão na Série A.

No próximo domingo (12), o Sete volta a campo para tentar outro feito inédito para times do Estado: resistir ao primeiro confronto pela Copa Verde. Depois de beliscar um empate em 1 a 1 no Douradão, o Ceilândia-DF que se cuide no Estádio Abadião. O pequeno sul-mato-grossense rompedor de escritas está louquinho para aprontar novamente.

Quando MS sobreviveu a primeira fase da Copa do Brasil

Sete de Dourados – 2017
Naviraiense – 2013
Misto – 2009
Cene – 2006
Cene – 2004
Comercial – 1994
Operário – 1990

* Em 1996, o Operário começou a Copa do Brasil já na segunda fase

OBS: o Retranca está de endereço novo; mais curto e mais fácil.
Agora é www.retranca.blog. Obrigado pela leitura!

Sopa de cautela

Comercial e Operário voltam à campo neste fim de semana pela segunda rodada do “Sul-mato-grossensezão”. Não voltam sozinhos. Depois da boa estreia das duas principais equipes de Campo Grande, seus torcedores automedicaram-se com boas doses de “Empolgol”. O efeito colateral do xarope também vai ao gramado.

empolgolO Colorado visita a Serc neste sábado (4), às 16h, no Morenão. Isso mesmo. O time de Chapadão do Sul será mandante do duelo em Campo Grande porque ainda não conseguiu a liberação de seu estádio. Melhor para o Comercial, que agora só pega a estrada pela primeira fase do Estadual para fechar o returno diante do Costa Rica, dia 26 de março.

Noves fora a confusão, o time do técnico Márcio Bittencourt fez corar o mais pessimista dos comercialinos no debute contra o Novo. Não pelo placar, um corriqueiro 2 a 1, mas pela atuação, em especial no primeiro tempo.

O trio ofensivo – Danielzinho, Rodrigo Ost e Roger – mostrou um entrosamento precoce, com velocidade pelos lados do campo e boas tabelas. Glauber tomou conta da articulação e o lateral-direito Cafu provou que o passar dos anos o deixou mais sóbrio quando ataca.

Mas calma lá. O Novo não soube fazer frente ao ímpeto vermelho. O agora alviverde nada mais foi do que um amontoado de jogadores correndo atrás da bola. A saída repentina do técnico Mauro Marino desestabilizou o grupo. O banco de reservas no domingo passado era uma micareta de opiniões e o interino Gilberto dos Santos parecia se perguntar onde foi que amarrara seu jegue.

Mesmo superior, o Comercial cansou no segundo tempo e, não fosse a inércia do Novo e a incompetência dos que finalizaram nas poucas chances que o time teve, o retorno colorado ao Morenão seria menos glorioso. O sistema defensivo comercialino teve atuação insegura, com falhas de posicionamento e bolas nas costas dos laterais. É aí que o perigo faz morada.

Tomar quatro vezes ao dia

As doses de Empolgol foram ainda maiores entre a torcida do Operário, que encontra o Novo neste domingo (5), às 16h, no Morenão. Também pudera. Os comandados de Celso Rodrigues golearam por 4 a 0 os pupilos de Robert, técnico do União/ABC. Houve alvinegro projetando a final do campeonato depois dos golaços de Wilson e Rodrigo Grahl.

Exagero puro. A contar pelo que apresentou contra o Galo, o União/ABC entra forte na briga para voltar à Série B Estadual. O plantel do inexperiente Robert é jovem demais, limitado tecnicamente e com opções escassas.

O Operário, claro, teve muitos méritos. Grahl jogou os 90 minutos e liderou a equipe na cancha. Eduardo Arroz distribuiu bem o jogo e deu até passe para gol. Agnaldo apareceu bem na meia-direita e anotou dois gols com muita frieza. Igor Vilela movimentou-se por todo o campo e, com uma pitada a mais de objetividade, deve deslanchar.

Apesar do placar elástico, o Galo também demonstrou seus defeitos. A saída de bola da defesa para o ataque nem sempre fluía com naturalidade. E tome ligação direta e lançamentos saindo dos pés dos zagueiros. O bom meio-campo, com Eduardo Arroz, Agnaldo e Leandro Diniz, precisa de mais tempo para encaixar.

Bazílio Amaral chega para assumir o Novo e a equipe pode (e deve) mostrar um pouco mais de confiança e organização em campo. Apesar da estreia desanimadora, o grupo é capaz de dar mais trabalho. E a caminhada (re)começa justamente contra o Operário.

Contra os efeitos colaterais do Empolgol, nada melhor que uma sopa de cautela. É bom que Colorado e Galo se previnam para evitar medicamentos mais agressivos num futuro próximo.

Morenão volta encarnado

Dia chuvoso e cinzento. Nada receptivo para uma reestreia. Mas a camisa encarnada do Comercial e o bom futebol de seus jogadores tratou de dar cor ao retorno do futebol ao Morenão, onde a bola não rolava desde abril de 2014.

Revitalizado, com parte das arquibancadas agora coloridas como a bandeira da Colômbia, o novo Morenão foi hostil ao Novo. Os comandados do interino Gilberto dos Santos pouco fizeram em campo. Caíram fácil na marcação forte, rápidas triangulações pelos lados do campo e investidas agudas do Comercial, arquitetadas pelo técnico Márcio Bittencourt.

Em uma dessas, Cafu lançou Danielzinho – clamorosamente impedido -, que entrou na área, cortou o marcador e passou para Glauber fazer o pivô ao camisa 10, Rodrigo Ost. Com um chute rasteiro, Ost reinaugurou as redes do gol do Auto Cine.

A arbitragem também ignorou quando o zagueiro e capitão comercialino, David, deixou a bola sair pela lateral. Jefferson aproveitou, roubou a redonda e invadiu a área para vencer o goleiro Martins.

Antes do intervalo, Glauber encontrou Danielzinho livre pela ponta esquerda, que cruzou rasteiro para Roger completar e recolocar o Comercial na frente.

Durante o intervalo, Maguila e Luan, respectivamente volante e atacante do Novo, se aqueceram sob a chuva. O prefeito Marquinhos Trad distribuiu sorrisos e apertos de mão nas cadeiras numeradas. No mesmo setor, o presidente do Operário, Estevão Petrallás, e seu diretor de marketing, Orlando Arnoud Junior, papearam. Talvez pensando em baixar o preço dos ingressos, já que as 2.483 pessoas no Morenão pagaram, em média, R$ 15, valor R$ 10 mais barato que a média dos bilhetes para a estreia do Galo.

Depois do intervalo, Maguila lançava Luan, que rabiscava pelo lado esquerdo. Em uma oportunidade, o atacante serviu Jhonatan e viu o colega de vestiário desperdiçar. Em outra, finalizou de primeira e viu Martins crescer e impedir o empate.

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Comercialino Martins teve pouco trabalho sob as traves (Foto: Jones Mário)

A torcida comercialina gostou quando o centroavante Erik, mesmo com uns quilos a mais, entrou no lugar de Rodrigo Ost. Bittencourt gostou de Ost e cumprimentou calorosamente seu camisa 10. Já Ost gostou de jogar solto, flutuando no meio-campo e entrando na área. Segundo ele, foi assim que o professor pediu.

Seja pela chuva, seja porque o Novo tentava jogar, a partida ficou feia e o 2 a 1 permaneceu no placar. Placar, aliás, que segue sem funcionar no novo Morenão.

O Novo tentará se recuperar diante daquele que inspirou sua fundação: o Operário. Quem vier para assumir o comando do time terá bastante trabalho para fazer os 11 em campo se entenderem.

O Comercial viaja até Chapadão do Sul para encarar a Serc e deve voltar de lá com o dobro de pontos que soma hoje.

Quanto ao Morenão, vale lembrar: Comercial e Novo estrearam em 2015 para 476 testemunhas no Olho do Furacão, e, em 2016, diante de 1.121 aficionados nas Moreninhas. Os 2.483 torcedores (debaixo de chuva e em fim de mês) deste domingo deixam claro o quanto o gigante fez falta ao futebol local.

Por que perder seu tempo com o Estadual de futebol

Se você se encaixa no perfil comum do morador de Mato Grosso do Sul simpatizante do futebol, provavelmente está agonizando com a proximidade da edição 2017 do Campeonato Estadual, que começa neste domingo (29), com Comercial x Novo, às 16h, no Morenão. Você deve estar pesquisando bares e restaurantes que transmitem os jogos do seu time no Paulista, Carioca, Gaúcho, Mineiro, ou mesmo estudando a possibilidade de assinar o Premiere FC (se já não assinou), a fim de não ser torturado com as partidas de nível técnico duvidoso do torneio local, que serão televisionadas aos domingos e quartas-feira.

Entendo sua angústia, mas, enquanto você não se apaixona por algum clube sul-mato-grossense que o faça ir ao estádio e acompanhar de perto nosso certame, te ofereço CINCO motivos para se deixar envolver pela principal disputa futebolística do Estado. Isso mesmo, tipo lista do Buzzfeed.

1 – A volta do Morenão

Impedido de receber jogos desde setembro de 2014 por recomendação do Ministério Público Estadual (MPE), o Estádio Pedro Pedrossian, ou simplesmente Morenão, volta a ser palco do Sul-mato-grossense de futebol. A princípio, sediará os jogos de Comercial e Operário como mandantes. Para adequar o local às exigências do Estatuto do Torcedor, foram feitos reparos orçados em R$ 150 mil, com recursos do governo estadual. Situado a poucos minutos do Centro, a praça esportiva é de mais fácil acesso que o Jacques da Luz, nas Moreninhas, onde os times da Capital vinham mandando suas partidas. Além da localização, pesa em favor do Morenão o fator história: casa de Colorado e Galo durante seus melhores períodos no cenário nacional; recebeu a Seleção Brasileira; e,mais recentemente, em 2013, presenciou um Portuguesa 4 x 0 Corinthians e viu o Palmeiras levantar a taça de campeão da Série B após golear o Ceará por 4 a 1.

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Arquibancadas foram pintadas e setorizadas (Foto: FFMS)

2 – Os “estrangeiros”

Das doze equipes que brigarão pelo título este ano, seis apostam em treinadores que nunca trabalharam em Mato Grosso do Sul. É o caso de Comercial (com o paulista Márcio Bittencourt); Costa Rica (com o carioca Márcio Máximo); Naviraiense (com o capixaba Rony Aguilar); Operário (com o gaúcho Celso Rodrigues); Sete de Dourados (com o carioca Emanoel Sacramento); e União/ABC (com o baiano Robert). Alguns têm trabalhos destacáveis no currículo, caso de Bittencourt, que comandou o Corinthians campeão brasileiro em 2005 por boa parte do campeonato, e de Rodrigues, que dirigiu a Chapecoense em 2014 e ajudou a tirar a equipe da zona de rebaixamento à Série B nacional daquele ano. Outros, como Robert (aquele mesmo, careca), que nunca treinou time algum, precisam se provar. Vale a pena ver de perto, pelo sucesso ou pelo tombo.

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Márcio Bittencourt durante apresentação do Comercial (Foto: Nelson Corrales/Reprodução/Facebook)

3 – Fator surpresa

Quem não gosta de uma boa surpresinha? Pois nosso Campeonato Estadual costuma proporcionar resultados surpreendentes. Prova disso é que tivemos SEIS campeões diferentes nas últimas dez edições (Águia Negra, Ivinhema, Naviraiense, Comercial, Cene e Sete de Dourados). No Paulista, os dez últimos troféus foram erguidos por quatro times. No Carioca também. Em Minas foram três campeões em dez anos. No Rio Grande do Sul, dois. Quer mais surpresa? Mato Grosso do Sul fez campeões inéditos por quatro anos consecutivos (Coxim-2006, Águia Negra-2007, Ivinhema-2008 e Naviraiense-2009). O último vencedor, Sete de Dourados, também nunca havia ganho o Estadual.

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Sete de Dourados faturou título inédito no ano passado (Foto: Franz Mendes)

4 – Os medalhões

Já que o nível técnico do grosso de nossos jogadores não ajuda, ao menos temos a chance de ver veteranos que já brilharam em algum momento de suas carreiras agora nos gramados de Mato Grosso do Sul. O Operário terá, pelo segundo ano seguido, Rodrigo Gral, às vésperas de completar 40 anos. O atacante revelado pelo Grêmio tem passagens pela base da Seleção Brasileira e é ídolo da Chapecoense, pela qual fez parte das campanhas de acesso às Séries B e A do Brasileirão. Já o Sete de Dourados anunciou o uruguaio Acosta, de 40 anos, caso avance a segunda fase do campeonato – antes, ele disputa a Série A3 do Paulista pelo Taboão da Serra. Também atacante, o atleta se destacou pelo Náutico em 2007 e foi para o Corinthians no ano seguinte para disputar a Segundona com o time paulista.

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Rodrigo Gral em ação pelo Operário (Foto: Gazeta MS)

5 – Boas risadas

Jogadores medíocres, em gramados irregulares, diante de públicos ínfimos. Combinação perfeita para jogadas mal ensaiadas, furadas esdrúxulas, chutes de média distância que mais parecem tiros de meta, erros de passe triviais, goleiros engolindo frangos homéricos, caneladas, espanadas e muito, mas muito bico e chutão para o alto. Tudo isso rodada sim, rodada também. Se você não torce para nenhum time local (pois, se torce, os lances acima protagonizados por atletas do seu clube de coração te causariam profunda irritação), procure não levar a sério e divirta-se com as jogadas hilárias que só um campeonato de baixíssimo nível técnico como o Sul-mato-grossense pode proporcionar.

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Sempre sorridente Neneca, da comissão técnica do Operário (Foto: Reprodução/Facebook)

*Atualizada às 15h de 27/01 devido a mudanças (mais?) na tabela do campeonato.

Que honra foi te ver de perto, Chape

A dois metros do ponto de ônibus em que eu estava havia um varal com uma dezena de filtros dos sonhos. Bati o olho e entendi tudo. Hoje, mais de dois meses depois, a cena parece até premonitória. Parece não fazer sentido. Hoje, lembro da imagem e já não entendo mais nada.

Era uma tarde ensolarada de setembro, em Chapecó. Eu voltava pro Centro depois de comprar meu ingresso pra Chapecoense x Coritiba, na Arena Condá, pelo Brasileirão. Incluí a cidade do oeste catarinense no meu mochilão boleiro pelo Sul porque me encantava com a mística da Chape, como todos os que amam futebol no Brasil. Queria ver de perto como os 200 mil habitantes do município abraçaram e ergueram esse clube da Série D para a elite nacional em cinco anos.

sonhos

Fotos: Jones Mário

Vi pessoas orgulhosas de seu time fazendo frente aos grandes do futebol brasileiro e sul-americano. Era fácil encontrar o escudo da Chape nas lojas, restaurantes, bares, carros, camisetas. Tudo.

Parei num boteco da Avenida Getúlio Vargas na tarde do dia anterior ao jogo e vi o professor Caio Júnior caminhando na rua, com uma calça do Barcelona e uma mulher ao lado. Ninguém o incomodava. Ele parecia em casa. Parecia realizado.

Na manhã do jogo vi excursões de crianças e de idosos a fim de acompanhar o alviverde catarinense na Arena Condá. Vi uma torcida aprendendo a se acostumar com os feitos de seu time. Cada vez mais apaixonada e fiel. Cada vez menos influenciada pelos grandes de Porto Alegre, Grêmio e Internacional. Cada vez mais legítima.

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Que honra foi te ver jogar, Chape. E tão de perto. Que honra foi ver Kempes marcar, de cabeça, o gol da vitória sobre o Coxa naquela manhã de domingo. Que privilégio foi testemunhar as defesas de Danilo, que garantiram os três pontos naquele dia. Que honra conferir como Cleber Santana regia aquele time com seus passes precisos e sua visão de jogo.

Difícil acreditar, difícil de digerir. Jogadores e comissão técnica se foram. Os sonhos de Chapecó não.

Estadual 2017 nem começou e já vai mal

Eis que a penca de senhores do casarão no bairro Taveirópolis e seus miquinhos amestrados deram um jeito de esculhambar ainda mais o modorrento Campeonato Sul-mato-grossense de futebol. Em 2017, enquanto o formato com grupos regionalizados + quartas, semis e final foi mantido — por determinação do Estatuto do Torcedor —, do qual já estamos todos de saco cheio, a distribuição de vagas para Série D do Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Verde mudou. E virou final de feira ou liquidação queima de estoque.

“Tem pra todo mundo!”, ouviu-se da barraca da Madalena.

“O gerente ficou maluco!”, gritou o vendedor de móveis e eletrodomésticos.

No Estadual deste ano, campeão e vice (Sete de Dourados e Comercial, respectivamente) abocanharam as vagas na quarta divisão nacional e no principal mata-mata do país, e restou ao terceiro colocado (Operário) o lugar na Copa Verde. As duas melhores equipes de MS nas duas principais competições a que temos direito de jogar, e a terceira melhor no terceiro e último torneio de expressão para o qual temos lugar assegurado. Justo, não?

Não. Não para a estimada federação local de futebol e seus afoitos associados, que, de maneira unânime, aceitaram distribuir as vagas do Estado nas TRÊS competições para QUATRO clubes. Agora, tente entender a confusão: o campeão de 2017 vai para Série D e Copa do Brasil; o vice se garante também na Copa do Brasil; o terceiro colocado (decidido em duelo entre os derrotados nas semifinais) acompanha o primeiro na Série D; e o quarto tem a Copa Verde como consolação.

Isso quer dizer que, noves fora os dois rebaixados ainda na primeira fase, quase metade dos times do torneio vão representar MS em torneios nacionais. Logo aqui, onde raramente passamos de fase em qualquer tipo de competição devido ao nível técnico limitadíssimo de nossos melhores representantes. É sempre válido lembrar: em oito edições de Série D, avançamos da primeira fase apenas uma vez; e nas últimas dez Copas do Brasil, sobrevivemos ao confronto inicial somente em três ocasiões (Cene em 2006, Misto em 2009 e Naviraiense em 2013).

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Foto: Reprodução/Internet

É sempre bom lembrar também das dificuldades que nossos PRINCIPAIS clubes têm de se manter vivos financeiramente. O Cene, campeão estadual em 2014, declinou da vaga na Série D naquele ano. O Águia Negra, vice-campeão, fez o mesmo. O terceiro colocado, Itaporã, topou a empreitada e deu com a cara no chão ao desistir da quarta divisão do Brasil ainda na fase de grupos. Este ano, para não abandonar o torneio, o Comercial apenas cumpriu tabela, com um time fraco e desfigurado em relação ao que chegou à final do Sul-mato-grossense. Já o Sete de Dourados, com boa campanha, ameaçou não entrar em campo na segunda fase por causa de salários atrasados.

Os responsáveis pelo Estadual tentam repartir ainda mais as migalhas. Quanto mais clubes hipocritamente contemplados, melhor.

Com a nova distribuição de vagas, fica escancarado que o lado financeiro vem sempre à frente da questão técnica por essas bandas. Na Copa do Brasil há possibilidade de cotas de televisão e prêmio por avanço de fase; na Série D, não. Quem propôs a mudança e aqueles que a aceitaram preferem ganhar a grana do que ascender a terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Talvez, para uma equipe com planejamento, que entenda o abismo entre conseguir destaque via Copa do Brasil e via acesso à Série C, seja melhor terminar o Estadual em terceiro, e não na segunda colocação.

Em resumo, o Sul-mato-grossense 2017 nem começou e já vai mal. A lei do tal do Murphy prega há anos, mas demoramos a entender: nada é tão ruim que não possa piorar.