Ao amigo de estrada

Valdenir Rezende, repórter fotográfico e jornalista (Foto: João Carlos Castro)

Era uma dessas noites amenas de Ponta Porã. Estávamos hospedados num hotel barato a duas quadras da Linha Internacional. Nosso combinado com o Erick, então motorista do Correio do Estado, era nos encontrar no saguão e caçar alguma coisa pra jantar por ali perto. A demora me fez subir os três lances de escada e bater à porta do quarto. Valdenir atende com aquela cara amassada de sono, só de cueca. Ainda eram umas 20h. A cena me faz rir, e ele ri de volta. Diz que não vai, que já estava com sono.

Esse era Valdenir Rezende. Naquela noite, Erick e eu comemos pizza e falamos do Valdenir, de como ele era um cara humilde, de coração imenso, de amizade sincera. Lembro de dizer o quanto eu o admirava, o quanto ele me ajudava a crescer como jornalista e como pessoa.

Aquela foi minha última viagem pelo jornal. Foram incontáveis reportagens pelo interior, quase sempre com o Valdenir como parceiro de estrada. Maracaju, Dourados, Ponta Porã, Coxim, São Gabriel do Oeste, Aparecida do Taboado e por aí vai. O convívio fez surgir apelidos, piadas e histórias de contar pros netos.

Quando me despedi do Correio, chamei os mais próximos pra um churrasco em casa. O Álvaro, filho do Valdenir e hoje um amigo, me disse nesse dia que seu pai gostava muito de mim. Fiquei bobo de feliz.

A covid-19 deu uma rasteira no destino e Valdenir se despediu da gente neste domingo. Me vi tendo de noticiar sua morte. O jornalismo tem dessas coisas. O texto saiu travado, seco. Não fez jus à pessoa iluminada e inspiradora que ele foi.

Valdenir deixa um vácuo descomunal na nossa profissão. O olhar atento, apurado, sempre à frente, coisa que a gente reconhece só nos mestres. Deixa também um vazio angustiante nas pessoas que dividiram com ele sua vivência. Ao menos ficam os ensinamentos e as memórias, todas elas boas.

Ah, e Valdenir não foi no meu churrasco de despedida do Correio. Não precisei nem perguntar porque. Afinal, estava marcado pra umas 20h.

Faltou água e até cadeira na primeira rodada do Campeonato Estadual

Os jogadores de Novo e Urso deixaram o Estádio das Moreninhas sem tomar banho no último domingo (20). Não que os atletas dos times sejam avessos a chuveiro, esponja e sabonete. Faltou água nos vestiários mesmo.

Ao menos foi o que apontou o árbitro Augusto Domingos Borges Ortega na súmula da partida, válida pela primeira rodada do Sul-mato-grossense e que terminou com vitória por 1 a 0 dos visitantes.

O próprio juiz também voltou para casa sem aquela refrescante ducha pós-peleja, pois, segundo ele, o vestiário da arbitragem também não tinha água para banho.

Ortega foi auxiliado por Adriano Ferreira da Silva e Maycon Aparecido Lacerda. O quarto árbitro era Renan Roberto Barbieri Dan Pereira.

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Lance de Novo e Urso nas Moreninhas (Foto: Bruno Leal/TV Sobrinho MS)

Se nas Moreninhas faltou água, no Morenão faltou cadeira. A súmula do jogo entre Comercial e Serc – vencido pelo Colorado por 2 a 0 – traz o relato.

De acordo com o juiz Neuri Antonio Pryzbulinski, “não havia cadeiras e nem bancos em condições de uso para que os árbitros pudessem se acomodar” no vestiário destinado aos sopradores de apito.

Além de Pryzbulinski, os bandeirinhas Leandro dos Santos Ruberdo e Andanclei Neves Barros, bem como o quarto árbitro Rodrigo de Oliveira Lopes precisaram se desdobrar para amarrar as chuteiras antes da partida.

Ao mestre, com carinho

As pessoas amam e agradecem demais hoje em dia. Fazem questão de tornar públicos estes sentimentos. Posso parecer ranzinza (talvez seja), mas não sou disso. Algumas pessoas, porém, mudaram minha vida, me marcaram. Gente a quem devo gratidão infinita e que deve ser reconhecida. Luciano Shakihama, você é uma delas.

Fui estagiário de Esportes no jornal O Estado de MS, editoria tocada por “Kishô”, durante nove meses. Saí de um trampo onde ganhava mais por causa da fama de escola do veículo. Se tinha um momento em que eu poderia optar por receber menos, era aquele. E foram os nove meses em que mais fui feliz fazendo jornalismo.

Kishô, você foi o professor de redação que não tive na graduação. Sabe lapidar o texto de um “foca”. Não fosse por ti, os meus seriam redundantes até hoje.

Foi contigo que aprendi de fato a importância do gancho na reportagem. Títulos como “Capital recebe tal torneio” não tinham vez. Você sempre me instigou a ir atrás de um diferencial, algo que trouxesse originalidade e criatividade à pauta.

Desconfiança e cautela também absorvi de suas lições. “E se isso não acontecer?”, “Mas, e se esse cara estiver mentindo?”, “Quem disse tal coisa no texto? Tem que sempre citar a fonte”.

Tive a sorte de ter você como editor em ano de Copa do Mundo no Brasil. Contigo digeri o choque do 7 a 1 e, antes disso, os dilemas do “vai ter Copa” e do “não vai ter Copa”.

Me pautou para entrevistar Marcos, o goleiro do penta; Ana Moser, ícone do vôlei; Zico, ídolo do Flamengo. Me mandou para o futebol amador dos bairros, jogos escolares.

A maior história da minha curta trajetória como jornalista foi sob sua batuta. Morenão impedido pelo Ministério Público de receber partidas. Interdição que durou até o começo desse ano. Conseguimos documentos, detalhes e boas entrevistas. “Dossiê Morenão”, sugeri. Você, louco, acatou e quase emplacamos uma manchete com uma pauta de Esportes.

Minha maior frustração era te encontrar chegando, eu de saída, e dizer que a manhã não tinha rendido nada. “Deixei um Panorama só e o ‘Na TV’. Hoje tava foda”.

Pensando bem, frustrante mesmo foi ter convivido tão pouco com sua genialidade. Cabeça sempre a mil, ideias em profusão, sagacidade e faro aguçado. Inspirador para qualquer jornalista que se interessa por esporte.

Fora de campo”, papos sobre música, política e futebol, claro. Trocadilhos e mais trocadilhos, inteligentes ou infames. Ou os dois.

Com sua pretensa (digo isso porque o vi na pista de dança de dois casamentos) timidez, quase não ouvia sua voz quando falava comigo. Mesmo assim, é a sua voz que ouço na minha cabeça quando reviso meu texto e encontro alguma besteira que escrevi. Acho que vou te ouvir pra sempre na minha mente. E minha gratidão por isso não cabe em mim, por isso faço questão de externalizar.

Hoje se encerra uma era no jornalismo esportivo de Campo Grande e do Estado. Era que você mesmo magistralmente construiu.

Como diz aquela música que sei que você gosta, “tudo vai, tudo é fase, irmão. Logo mais vamo arrebentar no mundão”.

Sinto que nossas estradas vão se cruzar novamente.

Por enquanto, obrigado por mudar minha minha vida.

Que honra foi te ver de perto, Chape

A dois metros do ponto de ônibus em que eu estava havia um varal com uma dezena de filtros dos sonhos. Bati o olho e entendi tudo. Hoje, mais de dois meses depois, a cena parece até premonitória. Parece não fazer sentido. Hoje, lembro da imagem e já não entendo mais nada.

Era uma tarde ensolarada de setembro, em Chapecó. Eu voltava pro Centro depois de comprar meu ingresso pra Chapecoense x Coritiba, na Arena Condá, pelo Brasileirão. Incluí a cidade do oeste catarinense no meu mochilão boleiro pelo Sul porque me encantava com a mística da Chape, como todos os que amam futebol no Brasil. Queria ver de perto como os 200 mil habitantes do município abraçaram e ergueram esse clube da Série D para a elite nacional em cinco anos.

sonhos

Fotos: Jones Mário

Vi pessoas orgulhosas de seu time fazendo frente aos grandes do futebol brasileiro e sul-americano. Era fácil encontrar o escudo da Chape nas lojas, restaurantes, bares, carros, camisetas. Tudo.

Parei num boteco da Avenida Getúlio Vargas na tarde do dia anterior ao jogo e vi o professor Caio Júnior caminhando na rua, com uma calça do Barcelona e uma mulher ao lado. Ninguém o incomodava. Ele parecia em casa. Parecia realizado.

Na manhã do jogo vi excursões de crianças e de idosos a fim de acompanhar o alviverde catarinense na Arena Condá. Vi uma torcida aprendendo a se acostumar com os feitos de seu time. Cada vez mais apaixonada e fiel. Cada vez menos influenciada pelos grandes de Porto Alegre, Grêmio e Internacional. Cada vez mais legítima.

chapeco

Que honra foi te ver jogar, Chape. E tão de perto. Que honra foi ver Kempes marcar, de cabeça, o gol da vitória sobre o Coxa naquela manhã de domingo. Que privilégio foi testemunhar as defesas de Danilo, que garantiram os três pontos naquele dia. Que honra conferir como Cleber Santana regia aquele time com seus passes precisos e sua visão de jogo.

Difícil acreditar, difícil de digerir. Jogadores e comissão técnica se foram. Os sonhos de Chapecó não.

Estadual 2017 nem começou e já vai mal

Eis que a penca de senhores do casarão no bairro Taveirópolis e seus miquinhos amestrados deram um jeito de esculhambar ainda mais o modorrento Campeonato Sul-mato-grossense de futebol. Em 2017, enquanto o formato com grupos regionalizados + quartas, semis e final foi mantido — por determinação do Estatuto do Torcedor —, do qual já estamos todos de saco cheio, a distribuição de vagas para Série D do Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Verde mudou. E virou final de feira ou liquidação queima de estoque.

“Tem pra todo mundo!”, ouviu-se da barraca da Madalena.

“O gerente ficou maluco!”, gritou o vendedor de móveis e eletrodomésticos.

No Estadual deste ano, campeão e vice (Sete de Dourados e Comercial, respectivamente) abocanharam as vagas na quarta divisão nacional e no principal mata-mata do país, e restou ao terceiro colocado (Operário) o lugar na Copa Verde. As duas melhores equipes de MS nas duas principais competições a que temos direito de jogar, e a terceira melhor no terceiro e último torneio de expressão para o qual temos lugar assegurado. Justo, não?

Não. Não para a estimada federação local de futebol e seus afoitos associados, que, de maneira unânime, aceitaram distribuir as vagas do Estado nas TRÊS competições para QUATRO clubes. Agora, tente entender a confusão: o campeão de 2017 vai para Série D e Copa do Brasil; o vice se garante também na Copa do Brasil; o terceiro colocado (decidido em duelo entre os derrotados nas semifinais) acompanha o primeiro na Série D; e o quarto tem a Copa Verde como consolação.

Isso quer dizer que, noves fora os dois rebaixados ainda na primeira fase, quase metade dos times do torneio vão representar MS em torneios nacionais. Logo aqui, onde raramente passamos de fase em qualquer tipo de competição devido ao nível técnico limitadíssimo de nossos melhores representantes. É sempre válido lembrar: em oito edições de Série D, avançamos da primeira fase apenas uma vez; e nas últimas dez Copas do Brasil, sobrevivemos ao confronto inicial somente em três ocasiões (Cene em 2006, Misto em 2009 e Naviraiense em 2013).

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Foto: Reprodução/Internet

É sempre bom lembrar também das dificuldades que nossos PRINCIPAIS clubes têm de se manter vivos financeiramente. O Cene, campeão estadual em 2014, declinou da vaga na Série D naquele ano. O Águia Negra, vice-campeão, fez o mesmo. O terceiro colocado, Itaporã, topou a empreitada e deu com a cara no chão ao desistir da quarta divisão do Brasil ainda na fase de grupos. Este ano, para não abandonar o torneio, o Comercial apenas cumpriu tabela, com um time fraco e desfigurado em relação ao que chegou à final do Sul-mato-grossense. Já o Sete de Dourados, com boa campanha, ameaçou não entrar em campo na segunda fase por causa de salários atrasados.

Os responsáveis pelo Estadual tentam repartir ainda mais as migalhas. Quanto mais clubes hipocritamente contemplados, melhor.

Com a nova distribuição de vagas, fica escancarado que o lado financeiro vem sempre à frente da questão técnica por essas bandas. Na Copa do Brasil há possibilidade de cotas de televisão e prêmio por avanço de fase; na Série D, não. Quem propôs a mudança e aqueles que a aceitaram preferem ganhar a grana do que ascender a terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Talvez, para uma equipe com planejamento, que entenda o abismo entre conseguir destaque via Copa do Brasil e via acesso à Série C, seja melhor terminar o Estadual em terceiro, e não na segunda colocação.

Em resumo, o Sul-mato-grossense 2017 nem começou e já vai mal. A lei do tal do Murphy prega há anos, mas demoramos a entender: nada é tão ruim que não possa piorar.

Que o futebol seja [só hoje] o ópio do povo

O “só hoje” entre colchetes no título do texto já explica que não parto da ideia de que o futebol seja, de fato, o ópio do povo. Sou partidário da noção de que o futebol se insere na sociedade como um fenômeno cultural, multifacetado, e que se faz espaço e pretexto para diversas manifestações de inclinação política, econômica ou mesmo de lazer, daqueles que são seduzidos por esse esporte.

Mas hoje, domingo, dia 17 de março de 2016, eu escolho pelo ópio. O panorama da política institucional e representativa do país me força a pensar assim. Um golpe tramado por réus do Supremo Tribunal Federal se encaminha para manchar mais uma página da pequena biografia da (falta de) democracia brasileira. O placar do impeachment marca 7 a 1 em favor do Contradição Futebol Clube.

A sensação é de que meu time é goleado e, aos 40 minutos da segunda etapa, não enxerga reação. O torcedor não abandona sua representação e prefere se iludir, ainda que na esperança de ver um futebol melhor jogado nestes últimos cinco minutos, um carrinho na lateral do campo para mostrar que os jogadores também estão se sentindo como você – anestesiado, mas presente e inquieto.

aquibancada

(Crédito: Gabriel Uchida)

É com o sentimento de “já era” que eu vou pro estádio hoje torcer pro meu time ganhar. A arquibancada vai me servir de alento. Parece luto, mas é só inércia mesmo. A impotência diante desse clamor público (e, principalmente, privado), ainda que muito equivocado e sem fundamento, me faz canalizar o que sobrou da minha fé nas pessoas nos onze caras que vão vestir as cores da minha equipe na tarde de hoje.

Que o futebol continue a exercer seu papel de agente social de mobilização, como faz a Gaviões da Fiel em São Paulo, que, sob represália e violência policial, não engole à seco o gosto amargo das contradições e desigualdades servidas na merenda. Ou como fizeram Vasco e Internacional ao se posicionarem ao lado dos negros quando o esporte bretão vivia um apartheid, dentro e fora das quatro linhas.

Mas hoje, calejado pela ignorância de boa parte dos seres humanos, fico com o ópio.

Palpites de quinta para as quartas

Sete x Águia

Crédito: Renato Giansante/Divulgação/Sete de Setembro

Ah, o mata-mata! Depois de 60 partidas pela fase de grupos do Campeonato Sul-mato-grossense, é chegada a reta final. Hora do filho chorar e a mãe não ver.

Donos das melhores campanhas da primeira perna do torneio, Comercial, Operário, Costa Rica e Sete Setembro podem até empatar os confrontos de ida e volta pelas quartas de final que se classificam às semifinais. Por outro lado, Águia Negra, Ivinhema, Corumbaense e Serc precisam vencer.

Mesmo certo de que pode quebrar a cara, o Retranca se arriscou e vai palpitar sobre os resultados dos duelos. Primeiro, vão os pitacos dos jogos de ida.

Serc x Sete de Setembro
Quarta-feira (6), 15h, em Chapadão do Sul
Análise: A Serc não perde a três jogos e vem de vitória sobre o Operário, fora de casa – resultado que garantiu o time de Chapadão nas quartas de final. Na contramão, tem a segunda pior defesa do Estadual, com 16 gols sofridos, à frente apenas do Aquidauanense, pior time da competição e rebaixado sem vencer nenhum confronto. Por outro lado, o Sete perdeu seus dois últimos compromissos, com direito a goleada contra o Ivinhema (5 a 1). Em um grupo equilibrado, porém, foi o que mais venceu – cinco vezes.
Palpite de quinta: Serc 1 x 2 Sete de Setembro
Quem pode desequilibrar: Guilherme, do Sete, artilheiro do campeonato com sete gols.

Costa Rica x Corumbaense
Quarta-feira (6), 20h45, em Costa Rica
Análise: O Costa Rica se mostrou um dos times mais irregulares do Estadual, alternando vitórias e derrotas, com boas e más apresentações. Da quinta a décima rodada da primeira fase, a equipe desenhou uma serra no gráfico de desempenho: triunfo seguido de revés, que era seguido de triunfo, que era seguido de revés, e por aí foi. O Corumbaense, que também mostrou certa instabilidade no começo do campeonato, se acertou e venceu três dos últimos quatro compromissos. O clube ainda tem a segunda melhor defesa do campeonato, com sete tentos contra.
Palpite de quinta: Costa Rica 1 x 1 Corumbaense
Quem pode desequilibrar: Kéverson, do Corumbaense, que já soma cinco gols no Estadual.

Águia Negra x Comercial
Sábado (9), 19h30, em Rio Brilhante
Análise: O Águia foi mais um que se classificou às quartas somente na última rodada do Estadual, batendo o já rebaixado Aquidauanense. O clube de Rio Brilhante venceu o mesmo tanto que perdeu (quatro vezes) e tem mais gols contra do que pró. Em casa, tem duas vitórias, dois empates e um revés. Já o Comercial chega a segunda fase com a melhor campanha do torneio, além da defesa menos vazada – seis gols sofridos. Nos últimos cinco duelos, foram quatro vitórias e um empate, no clássico com o Operário.
Palpite de quinta: Águia Negra 0 x 1 Comercial
Quem pode desequilibrar: Uelisson Santana, do Comercial, com boas atuações na armação.

Ivinhema x Operário
Domingo (10), 15h, em Ivinhema
Análise: Único invicto da primeira fase, o Ivinhema é aquele time cascudo, que não entrega fácil os pontos. Tem três vitórias (todas jogando em casa) e sete empates no campeonato, além de um ataque potente, que marcou 15 gols em dez jogos e só não é melhor que o Costa Rica (16 gols). Já o Operário teve sua invencibilidade quebrada na rodada final da primeira fase, quando caiu diante da Serc. Depois de começar bem o Estadual, o time de Campo Grande já amarga três jogos sem saber o que é vitória, contando com o empate diante do Misto – pela sexta rodada, interrompido por falta de luz e continuado entre a oitava e a nona jornada do torneio.
Palpite de quinta: Ivinhema 1 x 0 Operário
Quem pode desequilibrar: Agnaldo, do Ivinhema, ex-Operário. A Lei do Ex não costuma falhar.

_e-mail do presidente_mar

“Sessão fictícia sobre as correspondências eletrônicas despachadas pelo gabinete da presidência da Federação de futebol de MS. Descaradamente inspirada no ‘diário da Dilma’, da revista Piauí”.

 

1º de março – Amanhã vou poder ver a rapaziada do time aquidauanense jogando em casa, na Capital. É pela primeira rodada, mas já estrearam no nosso campeonato. Não entendi. Vou questionar meu coordenador de competições, que já publicou mais uma tabela hoje…

2 de março – Não deu pro escrete aquidauanense. A gurizada de Dourados vestiu a camisa do Chiquinho e sapecou um 2 a 0 em plena Moreninhas. Saí de lá atrás de um conhaque pra esquecer o revés e não achei nenhuma biboca aberta. De quebra, a tevê mudou o jogo de domingo e o pessoal de Chapadão do Sul não gostou muito. Dia para se esquecer…

3 de março – Os naviraienses mexeram seus pauzinhos e vão liberar o estádio Virotão. Enquanto isso, nosso Morenão agoniza e nem a companhia dos morcegos tem mais. Acreditam que expulsaram os bichinhos de lá, família? Fiquei preocupado. Tomara que os mamíferos não façam como o futebol da Capital e vão morar nas Moreninhas também, senão estragariam os retoques da prefeitura. Aliás, gostei da cor azul das arquibancadas – me lembrou do Saad.

5 de março – Não tinha nada pra fazer nesse sabadão e resolvi acompanhar nosso campeonato. O Novo tomou um sapeco do Carcará na região Sul campo-grandense e o caldo (de carne) do Ronildo parece desandar. Os corumbaenses ficaram no 1 a 1 com o clube de Naviraí e seguem sem vencer no Arthur Marinho. Pra variar, o time de Ivinhema empatou em Dourados com os sete de lá e continua invicto.

6 de março – Hoje deu Galo em Chapadão e Cobra do Norte na Capital, mas bom mesmo foi o time de Aquidauana, que arrancou um empate em Rio Brilhante e conquistou seu segundo ponto no nosso campeonato. Mas só sei disso porque me avisaram no WhatsApp. Fiquei assistindo Santos e Corinthians e emendei com o Terceiro Tempo. Dá gosto de ver um debate tão aprofundado sobre o esporte bretão! A família do futebol brasileiro agradece.

9 de março – Hoje teve competição nacional nas Moreninhas, família! Uma grande festa! Fui no mercado e troquei as garrafas PET que sobram no Big House por um par de ingressos. Em campo, o Colorado foi valente e segurou o placar em branco com o poderoso time de Cuiabá – atual campeão da Copa Verde.

10 de março – Hoje teve mais uma peleja nas Moreninhas, dessa vez pelo nosso campeonato. E parece que o Calonga abandonou a chalana corumbaense depois de empatar com o time de Aquidauana. Achei exagero, afinal, beliscou um ponto na casa do adversário! Por falar em beliscar, tá na hora do meu espetinho de filé-mignon na Feira Central…

12 de março – Fui até Três Lagoas pra ver meu time jogar. O Carcará dava tiros no escuro. Tentei dar uma luz, que virou apagão aos 19 minutos do segundo tempo. A peleja tinha de terminar no dia seguinte, mas fomos até o Lagoa da Prata petiscar uma tilápia com provolone e o pessoal exagerou na cervejinha. Marcamos um reencontro pra daqui dez dias.

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Crédito: Reprodução/Internet

13 de março – O Novo sofreu mais um revés na Capital. O superclássico com o Colorado terminou em vitória inédita para os lobos-guará e o time do Ronildo tá mostrando que não é nenhuma carne de pescoço, como previam. Novidade mesmo foi o clube de Ivinhema, que não empatou, além da rapaziada de Costa Rica, que perdeu.

16 de março – O Galo agravou a crise no Novo e bateu seu novo rival por 2 a 0 nas Moreninhas. Por um momento meu coração se dividiu e não sabia para quem torcer, mas lembrei que o amor de um pai é imbatível – ao contrário do Tricolor da Capital. Em Mato Grosso, o Colorado bem que tentou, mas não segurou o ímpeto do grupo cuiabano e foi eliminado da simpaticíssima Copa Verde. Se bem conheço a diretoria dos lobos-guará, cabeças devem rolar…

17 de março – A promotoria fez justiça e liberou o estádio Virotão para o time de Naviraí mandar suas partidas em casa. Já o Morenão segue na mesmice e a casa do futebol brasileiro anda dificultando um pouco nossa vida, emitindo laudos de vistoria que não passaram pelo meu gabinete. Saudades dos meus irmãos Marin e Del Nero…

20 de março – Teve rodada do nosso campeonato hoje e parece que já tem time classificado pras quartas de final. Deve ter sido mais interessante que o Fla-Flu no Pacaembu. Sinto que perdi meu tempo vendo aquela bagaça. Pelo menos tomei uma soda limonada nos arredores da Praça Charles Miller. Volto só amanhã para a Capital morena e quarta-feira tem comes e bebes em Três Lagoas. Ou estão pensando que eu esqueci?

23 de março – O pessoal de Três Lagoas até tentou melar nossa cervejinha com peixe frito aqui na divisa hoje, mas eu já estava no caminho. Perdemos meia horinha no Madrugadão antes do encontro e o calorão beira-de-rio afetou os jogadores no gramado, que até se sentaram por um momento. Coisas do futebol, família.

26 de março – Liguei para o dono do Novo e chamei pra um almoço no Big House. Perderam mais uma em casa e estão à beira da zona de rebaixamento. Aproveitei e marquei uma pescaria no Rio Aquidauana. A coisa tá feia por lá também e os caras já caíram. Só decepção, família…

27 de março – Mais um Comerário, mais um empate. Melhor assim que ficam todos felizes e classificados. Fui assoprar uma dica pro treinador do Galo no primeiro tempo e o cara ficou bravo. Minha língua é um pouco presa e talvez tenha respingado alguma coisa na camiseta rosa dele. Como ele mesmo disse certa vez: “faz parte do futebol”.

29 de março – Depois do vexame em Pernambuco fui dar um passeio em Assunção para assistir o time da casa do futebol brasileiro desfilar no Defensores del Chaco. Foi feio de ver, família. Nosso campeonato tá melhor que essas Eliminatórias. Senti falta de um Edilsinho na meiúca e de um Miltão na zaga. Quem sabe na próxima convocação.

30 de março – O time de Naviraí tá em franca recuperação e botou uma pimentinha no grupo B, depois de vencer os sete de Dourados. A tevê passou e acompanhei de casa mesmo, saboreando uma pizza meia calabresa, meia três queijos. Fim de semana tem a última rodada da primeira fase do nosso campeonato, mas depois dessa pizza só consigo pensar em Lazio x Roma, no domingo. Não perco por nada!

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Crédito: Reprodução/Internet

Crônica de um futebol de anônimos

Sugestão: para ler ouvindo “Na Sombra do Boi”, de Thiago França.

“Toca essa bola pro seis, nove!”, esbraveja um torcedor com os olhos esbugalhados. Talvez pela melhor opção e mais óbvia, talvez por ter escutado o apelo da arquibancada, o nove busca o um-dois com o seis pelo lado esquerdo do ataque da equipe colorada. O treze da equipe visitante, trajada em tons de verde e branco, faz um corte providencial e encerra a jogada instruída e fantasiada pelo aficionado. Ele se senta e vê o mesmo treze centrar a bola na área para a saída segura do goleirão, camisa um.

Meio de tarde de uma quarta-feira com tempo fechado. Mal-acomodado no cimento frio e azulado do acanhado estádio das Moreninhas, na região sul do extremo sul de Campo Grande, o único jogador de seu time que aquele corajoso (ou desocupado) fã conhece é o que ostenta a dez nas costas. Campeão nacional e do mundo. Depois de mais de duas décadas dedicadas ao futebol, o nordestino já consagrado desfila os últimos recursos que o físico ainda lhe permite naquele gramado irregular.

Noves fora o atacante, dono do time, todos que correm de camisa vermelha são verdadeiras incógnitas para dois terços da torcida. O dez sente lesão ainda na primeira etapa e dá lugar ao camisa dezoito. A peleja válida por um campeonato inter-regional perde a referência e, da arquibancada, ecoam pedidos dignos de um jogo de bingo ou de batalha naval. “Vira, oito!”. “Passa, dois!”. “Chuta, onze!”

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(Crédito: Pedro Lima/Assessoria Cuiabá E.C.)

Fora do ar por problemas de toda ordem, as estações de rádio sequer podem ajudar os desamparados torcedores, órfãos de um nome para xingar, motivar, pedir a substituição. Pra variar, o numeral é deixado de lado e a vítima da vez é o maqueiro – também sem alcunha conhecida. Pouco depois, um nada contido aficionado sugere uma alternativa aos símbolos matemáticos e recorre ao posicionamento dos atletas. “Dribla ele, lateral!”. “Assim não, zagueiro!”.

As trocas correm soltas nas equipes. Sai o cinco no clube colorado e entra o catorze, este privilegiado por sua aparência que lhe confere os apelidos de “homem das cavernas”, “Osama” ou “Uga-Uga” (confesso que não entendi este último, mas tudo bem). Ele começa mal e logo os anseios da arquibancada chegam ao treinador, cujos cargo e autoridade lhe dão a vantagem de ser chamado pelo conjunto de letras grafadas em sua certidão de nascimento. Vantagem até que alguém cole no alambrado, a um ou dois metros de distância da área técnica, e passe a dar pitacos.

Um zero para cada lado define o placar do cotejo. Chamados pelos números que levam no uniforme ou pelos vulgos que carregam graças à aparência, os atletas do time da casa são discretamente aplaudidos. A diferença técnica entre as agremiações faz o resultado ser celebrado pela torcida.

O onze poderia levar o um a zero para o duelo de volta, mas a finalização nos últimos minutos passou rente à trave esquerda do arqueiro visitante. Fizesse o gol, seu nome até circularia em sussurros dos pouquíssimos que conhecem o escrete. No jogo seguinte se tornaria unanimidade entre os torcedores. Não importa. Onde o futebol é jogado por anônimos, a escalação é mero bibelô. Nome é detalhe. A paixão não.

É futebol, mas lembra igreja

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Torcedor protesta no Estádio das Moreninhas (Crédito: Divulgação)

 

É um torneio
Muito engraçado
Que não tem prêmio
Mal tem estádio
Tereré e pipoca
Não pode não
Porque a PM
Não tem noção

Ninguém pode
Tomar cerveja
É futebol
Mas lembra igreja
Rádio de pilha
Virou ameaça
Perdeu a emoção
Ficou sem graça

Mas era feito
Com muito zelo
Leis de vitrine
Repressão modelo

 

Paródia de “A Casa”, do botafoguense Vinicius de Moraes e do corintiano Toquinho, inspirada em acontecimentos recentes durante o Campeonato Sul-mato-grossense de futebol.