Ao amigo de estrada

Valdenir Rezende, repórter fotográfico e jornalista (Foto: João Carlos Castro)

Era uma dessas noites amenas de Ponta Porã. Estávamos hospedados num hotel barato a duas quadras da Linha Internacional. Nosso combinado com o Erick, então motorista do Correio do Estado, era nos encontrar no saguão e caçar alguma coisa pra jantar por ali perto. A demora me fez subir os três lances de escada e bater à porta do quarto. Valdenir atende com aquela cara amassada de sono, só de cueca. Ainda eram umas 20h. A cena me faz rir, e ele ri de volta. Diz que não vai, que já estava com sono.

Esse era Valdenir Rezende. Naquela noite, Erick e eu comemos pizza e falamos do Valdenir, de como ele era um cara humilde, de coração imenso, de amizade sincera. Lembro de dizer o quanto eu o admirava, o quanto ele me ajudava a crescer como jornalista e como pessoa.

Aquela foi minha última viagem pelo jornal. Foram incontáveis reportagens pelo interior, quase sempre com o Valdenir como parceiro de estrada. Maracaju, Dourados, Ponta Porã, Coxim, São Gabriel do Oeste, Aparecida do Taboado e por aí vai. O convívio fez surgir apelidos, piadas e histórias de contar pros netos.

Quando me despedi do Correio, chamei os mais próximos pra um churrasco em casa. O Álvaro, filho do Valdenir e hoje um amigo, me disse nesse dia que seu pai gostava muito de mim. Fiquei bobo de feliz.

A covid-19 deu uma rasteira no destino e Valdenir se despediu da gente neste domingo. Me vi tendo de noticiar sua morte. O jornalismo tem dessas coisas. O texto saiu travado, seco. Não fez jus à pessoa iluminada e inspiradora que ele foi.

Valdenir deixa um vácuo descomunal na nossa profissão. O olhar atento, apurado, sempre à frente, coisa que a gente reconhece só nos mestres. Deixa também um vazio angustiante nas pessoas que dividiram com ele sua vivência. Ao menos ficam os ensinamentos e as memórias, todas elas boas.

Ah, e Valdenir não foi no meu churrasco de despedida do Correio. Não precisei nem perguntar porque. Afinal, estava marcado pra umas 20h.