Da desconfiança à superação: Comercial só encontra seu limite nas semifinais

Janeiro de 2019. De olho no elenco e no futebol apresentado nas primeiras rodadas, o mais óbvio era palpitar por uma eliminação do Comercial ainda nas quartas. Houve quem apostasse na queda para a Série B.

Como se já não fosse suficiente a desconfiança sobre o potencial da equipe, os problemas extracampo infestaram o time vermelho durante a competição. Salários atrasados e até dificuldades com local para treinar.

Abril de 2019. Colorado só para na semifinal do Campeonato Estadual. Deixa o Corumbaense pelo caminho e cai diante da “cascuda” equipe do Aquidauanense.

Aquele pé atrás da torcida em relação ao Comercial e todos os percalços enfrentados pelo grupo fora das quatro linhas serviram de combustível para os atletas.

Em meio a olhares hesitantes e caos administrativo, restou ao grupo comandado por Mário Tilico honrar a camisa encarnada. Em suas entrevistas, o professor sempre buscou exaltar a grandeza do Colorado e sua história vencedora em Mato Grosso do Sul.

O discurso não deve ser diferente nos vestiários e foi assimilado pelos jogadores, que jogaram sempre no limite do que poderiam render.

Mas motivação e superação não valeriam de nada em um time completamente desorganizado em campo. Há também um pouco de lógica na campanha de semifinalista do Comercial.

Para começar, o torcedor mais atento sabe a escalação colorada. Se não inteira, ao menos conhece a espinha dorsal da equipe. Mérito de Mário Tilico, que apostou na repetição dos titulares para solidificar um time.

Rodolfo, Juninho Pavi, Gilson Lins, Felipe Azevedo, França, Hyago… O Comercial tinha uma espinha dorsal. Estes jogadores só deixaram a equipe por lesão ou rara opção técnica de Tilico em algumas circunstâncias das partidas.

Com um grupo limitado e enxuto, o Comercial oscilou bastante. Após a derrota para o Operário no clássico, chegaram os reforços que a equipe precisava para se equilibrar.

Um trio de novidades merece destaque. O meio-campista Julio Cesar tomou a posição de titular de Danilo, até então principal destaque do Colorado.

Sem Danilo, Tilico perdeu chegada, mas ganhou o ritmista – como Tite gosta de dizer. Julio Cesar não aparece de surpresa para finalizar, mas prende a bola ou acelera quando necessário, sempre com muita lucidez e qualidade no passe.

Já o armador Lucas Kattah preencheu uma lacuna no elenco do clube vermelho. Pela camisa 10 já haviam passado Paulo Roberto e Matheus Gabriel – os dois sem sucesso.

Kattah não é nenhum craque. Joga simples, mas se movimenta bastante para receber a bola dos volantes e acionar o ataque. Era a peça que faltava para conectar os contra-ataques velozes.

Na frente, o atacante Gilmar supriu a principal carência no Comercial. A saída de Léo Mineiro no decorrer do campeonato e o baixo rendimento de nomes como Fabiano e Lucas Dronov foram esquecidos com a vinda do camisa 9.

Grandalhão, Gilmar se vira para segurar a bola no campo ofensivo e compensa a técnica limitada com dedicação. Mesmo depois de chegar na metade do Estadual, o atacante fecha a campanha como artilheiro do Comercial, com cinco gols.

Por último, o “fator Rodolfo” foi o fiel da balança (sem trocadilhos com o peso do jogador). O goleiro colorado, campeão em 2010 com a camisa encarnada, acumulou atuações muito acima da média do Estadual deste ano.

IMG-20190407-WA0033

Goleiro Rodolfo durante duelo de volta da semifinal (Foto: Franz Mendes)

O melhor jogo de Rodolfo foi diante do Águia Negra, na primeira fase, quando tornou concretas defesas bastante improváveis. Mas o camisa 1 também foi decisivo nos confrontos de mata-mata.

Contra o Corumbaense, operou um milagre ao defender cabeçada de Romarinho no Morenão, em uma bola que, se passa, decretaria a eliminação do Comercial.

Em Aquidauana, fechou o gol no segundo tempo do confronto de ida com o Azulão e garantiu o empate para o time de Campo Grande.

O Comercial apostou numa receita simples para o Estadual 2019. Reforçou o elenco com precisão quando diagnosticou carências. Reconheceu a diferença técnica contra equipes melhores, jogou no limite e contou com um goleiro inspirado para obter vitórias importantes.

Se a diretoria não honrou sua obrigação com o grupo, o grupo honrou a camisa nove vezes campeã do Estado, deixou tudo em campo e orgulhou seu torcedor.

Apostas, improvisos, mudanças e até Palmeiras: a eliminação do Operário

A cortina de fumaça criada pelos resultados e pela liderança obtida ao fim da primeira fase escondeu o desempenho fraco do Operário durante praticamente todos os jogos do Campeonato Estadual.

Quem olhou apenas para a tabela após 11 rodadas esperava um Galo novamente candidato ao título. Aquele que se atentou à performance do time em campo via sinais de uma queda precoce.

A eliminação do Operário nas quartas de final, após derrota e empate com o Aquidauanense, tem muito a ver com outra queda.

Na goleada para o Botafogo-PB, que tirou o Galo da Copa do Brasil ainda na primeira fase, algumas das convicções do técnico Arilson Costa foram escancaradas. A começar pela escalação.

Miracema, o homem de confiança

O atacante Thiago Miracema tinha a plena confiança do treinador até a partida pela competição nacional. Uma cotovelada flagrada pelo árbitro e punida com expulsão ainda no primeiro tempo poderia destruir todo esse crédito.

Não destruiu. Arilson bancou o jogador. Miracema foi poupado do jogo seguinte à eliminação, uma vitória nada convincente sobre o Novo, e voltou ao time titular em cinco dos últimos seis jogos do Galo na primeira fase. O atacante ficou de fora somente na 11ª rodada, contra o ABC.

Thiago Miracema retornou para a equipe titular nos dois jogos das quartas de final. Na volta, quando o Operário precisava vencer para avançar e diante do torcedor que tanto protestou contra sua presença no time, foi outra vez expulso na etapa inicial pelo mesmo motivo que o tirou de campo na partida pela Copa do Brasil.

01-08-0219-0170 Operario-Gol-AR

Thiago Miracema foi bancado por Arilson Costa durante todo o Estadual (Foto: Álvaro Rezende/Correio do Estado)

Eduardo Arroz, o displicente

Outro que também teve papel importante nas duas quedas do Galo foi o volante Eduardo Arroz. E aqui podemos questionar seu retorno ao Operário, visto que ele foi um dos símbolos de uma outra eliminação, em 2017, nas semifinais do Estadual, para o Corumbaense. A postura “banana” da equipe naquela partida ficou marcada pela torcida.

Arroz teve atuação lamentável diante do Botafogo-PB. Os meio-campistas do Belo contavam com marcação frouxa e espaço de sobra para criar e se movimentar.

O volante seguiu como titular até sofrer uma lesão. Ficou de fora por seis jogos. Voltou a ser relacionado no jogo de volta das quartas de final e entrou no segundo tempo.

O lance que origina o gol do Aquidauanense sai de um erro de Eduardo Arroz. Ele tenta um lançamento, cai e pede falta.

Arroz fazia a lateral-direita nesse momento do jogo. Após o erro, ele não volta para a defesa. Fica reclamando falta com assistente e quarto árbitro. Baiano recebe a bola no espaço que o volante deveria ocupar, chuta e marca.

Arilson Costa, o mau apostador

A intenção aqui não é pintar somente Miracema e Arroz como vilões. Há uma explicação para as atuações limitadas e erros dos dois. A justificativa atende pelo nome de Arilson Costa, que teimou em apostar na dupla.

As principais qualidades de Thiago Miracema são velocidade e vigor físico. Miracema se movimenta bem pelos lados do campo, faz pressão na saída de bola e costuma ganhar do adversário na corrida.

Mas o professor se manteve convicto em escalar Thiago Miracema centralizado no ataque. Talvez porque funcionou na estreia, contra o Corumbaense, quando o atacante faz o pivô na área e assiste Fernandinho para o segundo gol da vitória. Depois disso, não funcionou mais.

Arilson declarou em entrevistas anteriores que se espelha em Felipão, que foi seu treinador no Grêmio e no Palmeiras. A admiração pode ajudar a elucidar a forma como o Operário se comportou durante a primeira fase.

Campeão brasileiro em 2018, Felipão tinha Deyverson para brigar pela bola aérea após aquela esticada que vem do campo defensivo.

Arilson tinha Miracema, alvo de inúmeros lançamentos dos zagueiros e laterais. Mas o atacante do Galo só se assemelha ao do Palmeiras no temperamento e não consegue ter o mesmo aproveitamento nas disputas pelo alto.

Deyverson subia, dava aquela casquinha e os atletas de velocidade do Alviverde aproveitavam para definir rapidamente.

Thiago Miracema subia e não ganhava de quase ninguém pelo alto. Não tinha casquinha. Na ânsia de tentar se impor à força, acabava distribuindo cotoveladas.

Jones, atacante de maior porte físico e com características de área, passou praticamente todo o Estadual no banco de reservas. Ele terminou a competição com os mesmos três gols de Miracema.

Matheus Iacovelli também tem um perfil mais “nove” que Miracema. Chegou no meio do campeonato, jogou uma partida e não apareceu mais.

Agora, Eduardo Arroz. Em um campeonato nivelado por baixo, o veterano compensa sua lentidão e falta de força na marcação com bom posicionamento e excelente passe.

Foi equivocada a escolha por Eduardo Arroz para vestir a camisa 5 e fazer a contenção no duelo com o Botafogo-PB, um time que vinha invicto e que é bastante superior tecnicamente em relação ao Galo.

Poderia funcionar se Arroz tivesse a companhia de um volante mais marcador, mas seu companheiro era Alberto, que também é lento e de pouca pegada.

No segundo tempo da goleada paraibana, Gerson é substituído e Eduardo Arroz vira lateral-esquerdo. Arilson improvisaria o volante novamente nesta posição no jogo da volta com o Aquidauanense. Claro que não deu certo.

Arroz ficou um tempo na lateral-esquerda contra o Azulão. Depois inverteu com Da Silva e foi parar na direita. Foi quando errou um lançamento, caiu, esbravejou, não voltou e Baiano aproveitou o espaço deixado por ele para marcar.

O improviso e o troca-troca

Como vemos, Arilson Costa é adepto do improviso. E aqui ele se opõe ao que pensa seu ídolo Felipão, que evita escalar jogador fora de posição.

Ao longo do Campeonato Estadual, vimos também o meio-campista Fernandinho virar atacante pelo lado direito e o zagueiro Bruno Centeno se tornar volante.

Mas o principal erro de Arilson Costa até aqui foram as frenéticas mudanças na escalação titular. Em 14 jogos no ano, o treinador utilizou 14 formações diferentes.

Somadas as alterações entre uma partida e outra, foram 52 modificações. As forçadas por lesão foram minoria.

Se Arilson tentou colocar em prática um rodízio no elenco, falhou ao sequer encontrar um time.

As alterações em série podem ajudar a explicar também as más atuações. Com pouco tempo para treinar, o ideal seria a repetição dos titulares, para assimilação mais rápida de uma proposta de jogo e criar entrosamento.

Em resumo, o elenco do Operário oferece alternativas. Há bons jogadores e opções com diferentes perfis para distintas ideias. Faltou repertório a Arilson Costa, que preferiu se limitar às ligações diretas e jogadas de bola parada.

Como resultado, o Galo volta a ter apenas o Estadual para disputar em 2020. Se manter na Série D do Brasileiro e na Copa do Brasil do ano que vem era o objetivo mais falado pelo gerente de futebol Rodrigo Grahl em entrevistas.

Resta ainda a Série D deste ano, que começa daqui um mês. E a contar pelo que vimos no Estadual, a participação do Operário na competição promete ser curta.