Ao mestre, com carinho

As pessoas amam e agradecem demais hoje em dia. Fazem questão de tornar públicos estes sentimentos. Posso parecer ranzinza (talvez seja), mas não sou disso. Algumas pessoas, porém, mudaram minha vida, me marcaram. Gente a quem devo gratidão infinita e que deve ser reconhecida. Luciano Shakihama, você é uma delas.

Fui estagiário de Esportes no jornal O Estado de MS, editoria tocada por “Kishô”, durante nove meses. Saí de um trampo onde ganhava mais por causa da fama de escola do veículo. Se tinha um momento em que eu poderia optar por receber menos, era aquele. E foram os nove meses em que mais fui feliz fazendo jornalismo.

Kishô, você foi o professor de redação que não tive na graduação. Sabe lapidar o texto de um “foca”. Não fosse por ti, os meus seriam redundantes até hoje.

Foi contigo que aprendi de fato a importância do gancho na reportagem. Títulos como “Capital recebe tal torneio” não tinham vez. Você sempre me instigou a ir atrás de um diferencial, algo que trouxesse originalidade e criatividade à pauta.

Desconfiança e cautela também absorvi de suas lições. “E se isso não acontecer?”, “Mas, e se esse cara estiver mentindo?”, “Quem disse tal coisa no texto? Tem que sempre citar a fonte”.

Tive a sorte de ter você como editor em ano de Copa do Mundo no Brasil. Contigo digeri o choque do 7 a 1 e, antes disso, os dilemas do “vai ter Copa” e do “não vai ter Copa”.

Me pautou para entrevistar Marcos, o goleiro do penta; Ana Moser, ícone do vôlei; Zico, ídolo do Flamengo. Me mandou para o futebol amador dos bairros, jogos escolares.

A maior história da minha curta trajetória como jornalista foi sob sua batuta. Morenão impedido pelo Ministério Público de receber partidas. Interdição que durou até o começo desse ano. Conseguimos documentos, detalhes e boas entrevistas. “Dossiê Morenão”, sugeri. Você, louco, acatou e quase emplacamos uma manchete com uma pauta de Esportes.

Minha maior frustração era te encontrar chegando, eu de saída, e dizer que a manhã não tinha rendido nada. “Deixei um Panorama só e o ‘Na TV’. Hoje tava foda”.

Pensando bem, frustrante mesmo foi ter convivido tão pouco com sua genialidade. Cabeça sempre a mil, ideias em profusão, sagacidade e faro aguçado. Inspirador para qualquer jornalista que se interessa por esporte.

Fora de campo”, papos sobre música, política e futebol, claro. Trocadilhos e mais trocadilhos, inteligentes ou infames. Ou os dois.

Com sua pretensa (digo isso porque o vi na pista de dança de dois casamentos) timidez, quase não ouvia sua voz quando falava comigo. Mesmo assim, é a sua voz que ouço na minha cabeça quando reviso meu texto e encontro alguma besteira que escrevi. Acho que vou te ouvir pra sempre na minha mente. E minha gratidão por isso não cabe em mim, por isso faço questão de externalizar.

Hoje se encerra uma era no jornalismo esportivo de Campo Grande e do Estado. Era que você mesmo magistralmente construiu.

Como diz aquela música que sei que você gosta, “tudo vai, tudo é fase, irmão. Logo mais vamo arrebentar no mundão”.

Sinto que nossas estradas vão se cruzar novamente.

Por enquanto, obrigado por mudar minha minha vida.

Um comentário sobre “Ao mestre, com carinho

  1. Vixe, aqui tem emoção, hein?! Obrigado pela consideração. Mas, tive sorte de ter estagiários que aguentavam meus devaneios, que discutem mesmo e que não aceitam qualquer argumento apenas para fechar a edição. Como disse. aprendi muito contigo e com mais um montão de gente. Nesses último dias, que estão longe de ser fáceis para mim, ainda mais.
    Nove meses pariu além da admiração mútua, nasceu uma amizade bacana. Terei o maior prazer em trabalharmos juntos, de novo. Valeu, amigo.

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