Que honra foi te ver de perto, Chape

A dois metros do ponto de ônibus em que eu estava havia um varal com uma dezena de filtros dos sonhos. Bati o olho e entendi tudo. Hoje, mais de dois meses depois, a cena parece até premonitória. Parece não fazer sentido. Hoje, lembro da imagem e já não entendo mais nada.

Era uma tarde ensolarada de setembro, em Chapecó. Eu voltava pro Centro depois de comprar meu ingresso pra Chapecoense x Coritiba, na Arena Condá, pelo Brasileirão. Incluí a cidade do oeste catarinense no meu mochilão boleiro pelo Sul porque me encantava com a mística da Chape, como todos os que amam futebol no Brasil. Queria ver de perto como os 200 mil habitantes do município abraçaram e ergueram esse clube da Série D para a elite nacional em cinco anos.

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Fotos: Jones Mário

Vi pessoas orgulhosas de seu time fazendo frente aos grandes do futebol brasileiro e sul-americano. Era fácil encontrar o escudo da Chape nas lojas, restaurantes, bares, carros, camisetas. Tudo.

Parei num boteco da Avenida Getúlio Vargas na tarde do dia anterior ao jogo e vi o professor Caio Júnior caminhando na rua, com uma calça do Barcelona e uma mulher ao lado. Ninguém o incomodava. Ele parecia em casa. Parecia realizado.

Na manhã do jogo vi excursões de crianças e de idosos a fim de acompanhar o alviverde catarinense na Arena Condá. Vi uma torcida aprendendo a se acostumar com os feitos de seu time. Cada vez mais apaixonada e fiel. Cada vez menos influenciada pelos grandes de Porto Alegre, Grêmio e Internacional. Cada vez mais legítima.

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Que honra foi te ver jogar, Chape. E tão de perto. Que honra foi ver Kempes marcar, de cabeça, o gol da vitória sobre o Coxa naquela manhã de domingo. Que privilégio foi testemunhar as defesas de Danilo, que garantiram os três pontos naquele dia. Que honra conferir como Cleber Santana regia aquele time com seus passes precisos e sua visão de jogo.

Difícil acreditar, difícil de digerir. Jogadores e comissão técnica se foram. Os sonhos de Chapecó não.

Estadual 2017 nem começou e já vai mal

Eis que a penca de senhores do casarão no bairro Taveirópolis e seus miquinhos amestrados deram um jeito de esculhambar ainda mais o modorrento Campeonato Sul-mato-grossense de futebol. Em 2017, enquanto o formato com grupos regionalizados + quartas, semis e final foi mantido — por determinação do Estatuto do Torcedor —, do qual já estamos todos de saco cheio, a distribuição de vagas para Série D do Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Verde mudou. E virou final de feira ou liquidação queima de estoque.

“Tem pra todo mundo!”, ouviu-se da barraca da Madalena.

“O gerente ficou maluco!”, gritou o vendedor de móveis e eletrodomésticos.

No Estadual deste ano, campeão e vice (Sete de Dourados e Comercial, respectivamente) abocanharam as vagas na quarta divisão nacional e no principal mata-mata do país, e restou ao terceiro colocado (Operário) o lugar na Copa Verde. As duas melhores equipes de MS nas duas principais competições a que temos direito de jogar, e a terceira melhor no terceiro e último torneio de expressão para o qual temos lugar assegurado. Justo, não?

Não. Não para a estimada federação local de futebol e seus afoitos associados, que, de maneira unânime, aceitaram distribuir as vagas do Estado nas TRÊS competições para QUATRO clubes. Agora, tente entender a confusão: o campeão de 2017 vai para Série D e Copa do Brasil; o vice se garante também na Copa do Brasil; o terceiro colocado (decidido em duelo entre os derrotados nas semifinais) acompanha o primeiro na Série D; e o quarto tem a Copa Verde como consolação.

Isso quer dizer que, noves fora os dois rebaixados ainda na primeira fase, quase metade dos times do torneio vão representar MS em torneios nacionais. Logo aqui, onde raramente passamos de fase em qualquer tipo de competição devido ao nível técnico limitadíssimo de nossos melhores representantes. É sempre válido lembrar: em oito edições de Série D, avançamos da primeira fase apenas uma vez; e nas últimas dez Copas do Brasil, sobrevivemos ao confronto inicial somente em três ocasiões (Cene em 2006, Misto em 2009 e Naviraiense em 2013).

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Foto: Reprodução/Internet

É sempre bom lembrar também das dificuldades que nossos PRINCIPAIS clubes têm de se manter vivos financeiramente. O Cene, campeão estadual em 2014, declinou da vaga na Série D naquele ano. O Águia Negra, vice-campeão, fez o mesmo. O terceiro colocado, Itaporã, topou a empreitada e deu com a cara no chão ao desistir da quarta divisão do Brasil ainda na fase de grupos. Este ano, para não abandonar o torneio, o Comercial apenas cumpriu tabela, com um time fraco e desfigurado em relação ao que chegou à final do Sul-mato-grossense. Já o Sete de Dourados, com boa campanha, ameaçou não entrar em campo na segunda fase por causa de salários atrasados.

Os responsáveis pelo Estadual tentam repartir ainda mais as migalhas. Quanto mais clubes hipocritamente contemplados, melhor.

Com a nova distribuição de vagas, fica escancarado que o lado financeiro vem sempre à frente da questão técnica por essas bandas. Na Copa do Brasil há possibilidade de cotas de televisão e prêmio por avanço de fase; na Série D, não. Quem propôs a mudança e aqueles que a aceitaram preferem ganhar a grana do que ascender a terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Talvez, para uma equipe com planejamento, que entenda o abismo entre conseguir destaque via Copa do Brasil e via acesso à Série C, seja melhor terminar o Estadual em terceiro, e não na segunda colocação.

Em resumo, o Sul-mato-grossense 2017 nem começou e já vai mal. A lei do tal do Murphy prega há anos, mas demoramos a entender: nada é tão ruim que não possa piorar.