Que o futebol seja [só hoje] o ópio do povo

O “só hoje” entre colchetes no título do texto já explica que não parto da ideia de que o futebol seja, de fato, o ópio do povo. Sou partidário da noção de que o futebol se insere na sociedade como um fenômeno cultural, multifacetado, e que se faz espaço e pretexto para diversas manifestações de inclinação política, econômica ou mesmo de lazer, daqueles que são seduzidos por esse esporte.

Mas hoje, domingo, dia 17 de março de 2016, eu escolho pelo ópio. O panorama da política institucional e representativa do país me força a pensar assim. Um golpe tramado por réus do Supremo Tribunal Federal se encaminha para manchar mais uma página da pequena biografia da (falta de) democracia brasileira. O placar do impeachment marca 7 a 1 em favor do Contradição Futebol Clube.

A sensação é de que meu time é goleado e, aos 40 minutos da segunda etapa, não enxerga reação. O torcedor não abandona sua representação e prefere se iludir, ainda que na esperança de ver um futebol melhor jogado nestes últimos cinco minutos, um carrinho na lateral do campo para mostrar que os jogadores também estão se sentindo como você – anestesiado, mas presente e inquieto.

aquibancada

(Crédito: Gabriel Uchida)

É com o sentimento de “já era” que eu vou pro estádio hoje torcer pro meu time ganhar. A arquibancada vai me servir de alento. Parece luto, mas é só inércia mesmo. A impotência diante desse clamor público (e, principalmente, privado), ainda que muito equivocado e sem fundamento, me faz canalizar o que sobrou da minha fé nas pessoas nos onze caras que vão vestir as cores da minha equipe na tarde de hoje.

Que o futebol continue a exercer seu papel de agente social de mobilização, como faz a Gaviões da Fiel em São Paulo, que, sob represália e violência policial, não engole à seco o gosto amargo das contradições e desigualdades servidas na merenda. Ou como fizeram Vasco e Internacional ao se posicionarem ao lado dos negros quando o esporte bretão vivia um apartheid, dentro e fora das quatro linhas.

Mas hoje, calejado pela ignorância de boa parte dos seres humanos, fico com o ópio.

Palpites de quinta para as quartas

Sete x Águia

Crédito: Renato Giansante/Divulgação/Sete de Setembro

Ah, o mata-mata! Depois de 60 partidas pela fase de grupos do Campeonato Sul-mato-grossense, é chegada a reta final. Hora do filho chorar e a mãe não ver.

Donos das melhores campanhas da primeira perna do torneio, Comercial, Operário, Costa Rica e Sete Setembro podem até empatar os confrontos de ida e volta pelas quartas de final que se classificam às semifinais. Por outro lado, Águia Negra, Ivinhema, Corumbaense e Serc precisam vencer.

Mesmo certo de que pode quebrar a cara, o Retranca se arriscou e vai palpitar sobre os resultados dos duelos. Primeiro, vão os pitacos dos jogos de ida.

Serc x Sete de Setembro
Quarta-feira (6), 15h, em Chapadão do Sul
Análise: A Serc não perde a três jogos e vem de vitória sobre o Operário, fora de casa – resultado que garantiu o time de Chapadão nas quartas de final. Na contramão, tem a segunda pior defesa do Estadual, com 16 gols sofridos, à frente apenas do Aquidauanense, pior time da competição e rebaixado sem vencer nenhum confronto. Por outro lado, o Sete perdeu seus dois últimos compromissos, com direito a goleada contra o Ivinhema (5 a 1). Em um grupo equilibrado, porém, foi o que mais venceu – cinco vezes.
Palpite de quinta: Serc 1 x 2 Sete de Setembro
Quem pode desequilibrar: Guilherme, do Sete, artilheiro do campeonato com sete gols.

Costa Rica x Corumbaense
Quarta-feira (6), 20h45, em Costa Rica
Análise: O Costa Rica se mostrou um dos times mais irregulares do Estadual, alternando vitórias e derrotas, com boas e más apresentações. Da quinta a décima rodada da primeira fase, a equipe desenhou uma serra no gráfico de desempenho: triunfo seguido de revés, que era seguido de triunfo, que era seguido de revés, e por aí foi. O Corumbaense, que também mostrou certa instabilidade no começo do campeonato, se acertou e venceu três dos últimos quatro compromissos. O clube ainda tem a segunda melhor defesa do campeonato, com sete tentos contra.
Palpite de quinta: Costa Rica 1 x 1 Corumbaense
Quem pode desequilibrar: Kéverson, do Corumbaense, que já soma cinco gols no Estadual.

Águia Negra x Comercial
Sábado (9), 19h30, em Rio Brilhante
Análise: O Águia foi mais um que se classificou às quartas somente na última rodada do Estadual, batendo o já rebaixado Aquidauanense. O clube de Rio Brilhante venceu o mesmo tanto que perdeu (quatro vezes) e tem mais gols contra do que pró. Em casa, tem duas vitórias, dois empates e um revés. Já o Comercial chega a segunda fase com a melhor campanha do torneio, além da defesa menos vazada – seis gols sofridos. Nos últimos cinco duelos, foram quatro vitórias e um empate, no clássico com o Operário.
Palpite de quinta: Águia Negra 0 x 1 Comercial
Quem pode desequilibrar: Uelisson Santana, do Comercial, com boas atuações na armação.

Ivinhema x Operário
Domingo (10), 15h, em Ivinhema
Análise: Único invicto da primeira fase, o Ivinhema é aquele time cascudo, que não entrega fácil os pontos. Tem três vitórias (todas jogando em casa) e sete empates no campeonato, além de um ataque potente, que marcou 15 gols em dez jogos e só não é melhor que o Costa Rica (16 gols). Já o Operário teve sua invencibilidade quebrada na rodada final da primeira fase, quando caiu diante da Serc. Depois de começar bem o Estadual, o time de Campo Grande já amarga três jogos sem saber o que é vitória, contando com o empate diante do Misto – pela sexta rodada, interrompido por falta de luz e continuado entre a oitava e a nona jornada do torneio.
Palpite de quinta: Ivinhema 1 x 0 Operário
Quem pode desequilibrar: Agnaldo, do Ivinhema, ex-Operário. A Lei do Ex não costuma falhar.

_e-mail do presidente_mar

“Sessão fictícia sobre as correspondências eletrônicas despachadas pelo gabinete da presidência da Federação de futebol de MS. Descaradamente inspirada no ‘diário da Dilma’, da revista Piauí”.

 

1º de março – Amanhã vou poder ver a rapaziada do time aquidauanense jogando em casa, na Capital. É pela primeira rodada, mas já estrearam no nosso campeonato. Não entendi. Vou questionar meu coordenador de competições, que já publicou mais uma tabela hoje…

2 de março – Não deu pro escrete aquidauanense. A gurizada de Dourados vestiu a camisa do Chiquinho e sapecou um 2 a 0 em plena Moreninhas. Saí de lá atrás de um conhaque pra esquecer o revés e não achei nenhuma biboca aberta. De quebra, a tevê mudou o jogo de domingo e o pessoal de Chapadão do Sul não gostou muito. Dia para se esquecer…

3 de março – Os naviraienses mexeram seus pauzinhos e vão liberar o estádio Virotão. Enquanto isso, nosso Morenão agoniza e nem a companhia dos morcegos tem mais. Acreditam que expulsaram os bichinhos de lá, família? Fiquei preocupado. Tomara que os mamíferos não façam como o futebol da Capital e vão morar nas Moreninhas também, senão estragariam os retoques da prefeitura. Aliás, gostei da cor azul das arquibancadas – me lembrou do Saad.

5 de março – Não tinha nada pra fazer nesse sabadão e resolvi acompanhar nosso campeonato. O Novo tomou um sapeco do Carcará na região Sul campo-grandense e o caldo (de carne) do Ronildo parece desandar. Os corumbaenses ficaram no 1 a 1 com o clube de Naviraí e seguem sem vencer no Arthur Marinho. Pra variar, o time de Ivinhema empatou em Dourados com os sete de lá e continua invicto.

6 de março – Hoje deu Galo em Chapadão e Cobra do Norte na Capital, mas bom mesmo foi o time de Aquidauana, que arrancou um empate em Rio Brilhante e conquistou seu segundo ponto no nosso campeonato. Mas só sei disso porque me avisaram no WhatsApp. Fiquei assistindo Santos e Corinthians e emendei com o Terceiro Tempo. Dá gosto de ver um debate tão aprofundado sobre o esporte bretão! A família do futebol brasileiro agradece.

9 de março – Hoje teve competição nacional nas Moreninhas, família! Uma grande festa! Fui no mercado e troquei as garrafas PET que sobram no Big House por um par de ingressos. Em campo, o Colorado foi valente e segurou o placar em branco com o poderoso time de Cuiabá – atual campeão da Copa Verde.

10 de março – Hoje teve mais uma peleja nas Moreninhas, dessa vez pelo nosso campeonato. E parece que o Calonga abandonou a chalana corumbaense depois de empatar com o time de Aquidauana. Achei exagero, afinal, beliscou um ponto na casa do adversário! Por falar em beliscar, tá na hora do meu espetinho de filé-mignon na Feira Central…

12 de março – Fui até Três Lagoas pra ver meu time jogar. O Carcará dava tiros no escuro. Tentei dar uma luz, que virou apagão aos 19 minutos do segundo tempo. A peleja tinha de terminar no dia seguinte, mas fomos até o Lagoa da Prata petiscar uma tilápia com provolone e o pessoal exagerou na cervejinha. Marcamos um reencontro pra daqui dez dias.

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Crédito: Reprodução/Internet

13 de março – O Novo sofreu mais um revés na Capital. O superclássico com o Colorado terminou em vitória inédita para os lobos-guará e o time do Ronildo tá mostrando que não é nenhuma carne de pescoço, como previam. Novidade mesmo foi o clube de Ivinhema, que não empatou, além da rapaziada de Costa Rica, que perdeu.

16 de março – O Galo agravou a crise no Novo e bateu seu novo rival por 2 a 0 nas Moreninhas. Por um momento meu coração se dividiu e não sabia para quem torcer, mas lembrei que o amor de um pai é imbatível – ao contrário do Tricolor da Capital. Em Mato Grosso, o Colorado bem que tentou, mas não segurou o ímpeto do grupo cuiabano e foi eliminado da simpaticíssima Copa Verde. Se bem conheço a diretoria dos lobos-guará, cabeças devem rolar…

17 de março – A promotoria fez justiça e liberou o estádio Virotão para o time de Naviraí mandar suas partidas em casa. Já o Morenão segue na mesmice e a casa do futebol brasileiro anda dificultando um pouco nossa vida, emitindo laudos de vistoria que não passaram pelo meu gabinete. Saudades dos meus irmãos Marin e Del Nero…

20 de março – Teve rodada do nosso campeonato hoje e parece que já tem time classificado pras quartas de final. Deve ter sido mais interessante que o Fla-Flu no Pacaembu. Sinto que perdi meu tempo vendo aquela bagaça. Pelo menos tomei uma soda limonada nos arredores da Praça Charles Miller. Volto só amanhã para a Capital morena e quarta-feira tem comes e bebes em Três Lagoas. Ou estão pensando que eu esqueci?

23 de março – O pessoal de Três Lagoas até tentou melar nossa cervejinha com peixe frito aqui na divisa hoje, mas eu já estava no caminho. Perdemos meia horinha no Madrugadão antes do encontro e o calorão beira-de-rio afetou os jogadores no gramado, que até se sentaram por um momento. Coisas do futebol, família.

26 de março – Liguei para o dono do Novo e chamei pra um almoço no Big House. Perderam mais uma em casa e estão à beira da zona de rebaixamento. Aproveitei e marquei uma pescaria no Rio Aquidauana. A coisa tá feia por lá também e os caras já caíram. Só decepção, família…

27 de março – Mais um Comerário, mais um empate. Melhor assim que ficam todos felizes e classificados. Fui assoprar uma dica pro treinador do Galo no primeiro tempo e o cara ficou bravo. Minha língua é um pouco presa e talvez tenha respingado alguma coisa na camiseta rosa dele. Como ele mesmo disse certa vez: “faz parte do futebol”.

29 de março – Depois do vexame em Pernambuco fui dar um passeio em Assunção para assistir o time da casa do futebol brasileiro desfilar no Defensores del Chaco. Foi feio de ver, família. Nosso campeonato tá melhor que essas Eliminatórias. Senti falta de um Edilsinho na meiúca e de um Miltão na zaga. Quem sabe na próxima convocação.

30 de março – O time de Naviraí tá em franca recuperação e botou uma pimentinha no grupo B, depois de vencer os sete de Dourados. A tevê passou e acompanhei de casa mesmo, saboreando uma pizza meia calabresa, meia três queijos. Fim de semana tem a última rodada da primeira fase do nosso campeonato, mas depois dessa pizza só consigo pensar em Lazio x Roma, no domingo. Não perco por nada!

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Crédito: Reprodução/Internet