Crônica de um futebol de anônimos

Sugestão: para ler ouvindo “Na Sombra do Boi”, de Thiago França.

“Toca essa bola pro seis, nove!”, esbraveja um torcedor com os olhos esbugalhados. Talvez pela melhor opção e mais óbvia, talvez por ter escutado o apelo da arquibancada, o nove busca o um-dois com o seis pelo lado esquerdo do ataque da equipe colorada. O treze da equipe visitante, trajada em tons de verde e branco, faz um corte providencial e encerra a jogada instruída e fantasiada pelo aficionado. Ele se senta e vê o mesmo treze centrar a bola na área para a saída segura do goleirão, camisa um.

Meio de tarde de uma quarta-feira com tempo fechado. Mal-acomodado no cimento frio e azulado do acanhado estádio das Moreninhas, na região sul do extremo sul de Campo Grande, o único jogador de seu time que aquele corajoso (ou desocupado) fã conhece é o que ostenta a dez nas costas. Campeão nacional e do mundo. Depois de mais de duas décadas dedicadas ao futebol, o nordestino já consagrado desfila os últimos recursos que o físico ainda lhe permite naquele gramado irregular.

Noves fora o atacante, dono do time, todos que correm de camisa vermelha são verdadeiras incógnitas para dois terços da torcida. O dez sente lesão ainda na primeira etapa e dá lugar ao camisa dezoito. A peleja válida por um campeonato inter-regional perde a referência e, da arquibancada, ecoam pedidos dignos de um jogo de bingo ou de batalha naval. “Vira, oito!”. “Passa, dois!”. “Chuta, onze!”

colorado-verde-branco
(Crédito: Pedro Lima/Assessoria Cuiabá E.C.)

Fora do ar por problemas de toda ordem, as estações de rádio sequer podem ajudar os desamparados torcedores, órfãos de um nome para xingar, motivar, pedir a substituição. Pra variar, o numeral é deixado de lado e a vítima da vez é o maqueiro – também sem alcunha conhecida. Pouco depois, um nada contido aficionado sugere uma alternativa aos símbolos matemáticos e recorre ao posicionamento dos atletas. “Dribla ele, lateral!”. “Assim não, zagueiro!”.

As trocas correm soltas nas equipes. Sai o cinco no clube colorado e entra o catorze, este privilegiado por sua aparência que lhe confere os apelidos de “homem das cavernas”, “Osama” ou “Uga-Uga” (confesso que não entendi este último, mas tudo bem). Ele começa mal e logo os anseios da arquibancada chegam ao treinador, cujos cargo e autoridade lhe dão a vantagem de ser chamado pelo conjunto de letras grafadas em sua certidão de nascimento. Vantagem até que alguém cole no alambrado, a um ou dois metros de distância da área técnica, e passe a dar pitacos.

Um zero para cada lado define o placar do cotejo. Chamados pelos números que levam no uniforme ou pelos vulgos que carregam graças à aparência, os atletas do time da casa são discretamente aplaudidos. A diferença técnica entre as agremiações faz o resultado ser celebrado pela torcida.

O onze poderia levar o um a zero para o duelo de volta, mas a finalização nos últimos minutos passou rente à trave esquerda do arqueiro visitante. Fizesse o gol, seu nome até circularia em sussurros dos pouquíssimos que conhecem o escrete. No jogo seguinte se tornaria unanimidade entre os torcedores. Não importa. Onde o futebol é jogado por anônimos, a escalação é mero bibelô. Nome é detalhe. A paixão não.

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