Xingar sim, oprimir não

FC Bayern Muenchen v AC Milan  - Audi Cup 2015
Crédito: Lennart Preiss/Getty Images for Audi

Segundo tempo de um Operário x Comercial no estádio das Moreninhas, dia 28 de fevereiro. Apenas uma das traves da praça esportiva é moldurada por um rastro de arquibancada. Naquela etapa, o comercialino Martins defendia essa mesma trave, rodeada por torcedores operarianos – mandante da partida. O goleiro se prepara para bater o tiro de meta e ouço, de trás do gol, a pior das apropriações culturais pós-Copa do Mundo de 2014, com selo mexicano: “ôôôô, bicha!”.

Feito. O nanico futebol sul-mato-grossense, célula da estrutura boleira no país, absorveu por osmose o mais novo comportamento ignorante e preconceituoso dos apoiadores brasileiros, principalmente paulistas. Justiça seja feita, os gritos não vieram das torcidas organizadas, que carregam o estigma de responsáveis por tudo que há de desprezível no esporte bretão. Não. Vieram do torcedor comum, que, em uma provável reuniãozinha idiota, resolveram unir vozes para disseminar suas limitações ideológicas.

Penso que não é preciso, mas vou explicar. Balbuciar pejorativamente sobre a orientação homossexual, fazer piada, são ferramentas que legitimam a ignorância. Chamar alguém de “bicha” é corroborar sim com a violência física e psicológica sofrida por lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis. Quando se pratica essa estupidez em um estádio com cerca de 1,7 mil pessoas, em uma partida televisionada para todo o Estado, multiplica-se a forma retrógrada de pensar e agir daqueles vinte ou trinta atrás da meta defendida por Martins. O futebol perde uma parcela de pessoas que não se identificam com aquilo e o clube perde a renda dos LGBTTs que gostariam de ir ao estádio, mas sentem-se, justamente, rechaçados pelo ambiente discriminatório.

“…retire-se a pornografia do futebol e nenhum jogo será possível”, escreveu Nelson Rodrigues. Quem sou eu para contrariar, afinal, ainda nas palavras do cronista, o palavrão tem “impacto criador e libertário”. Xingar sim, oprimir e reproduzir preconceito não.

No fim de 2014, o Corinthians lançou manifesto pedindo a seus torcedores que parassem de gritar “bicha” aos goleiros adversários. Atitude louvável e exemplar, não fosse pelo motivo: medo. O clube fora denunciado pela secretaria de políticas LGBTT da prefeitura de São Paulo ao Tribunal de Justiça Desportiva do Estado e, cerca de um mês antes, o Grêmio fora punido com exclusão da Copa do Brasil após ofensas racistas ao goleiro Aranha, do Santos. A publicação não rendeu resultados, o Corinthians não foi punido e seus apoiadores continuam com a prática. Que agora chegou aos estádios sul-mato-grossenses.

O Estatuto do Torcedor, que veta “portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenófobo”, é pouco preciso e dá margens para interpretações. Se a homofobia ainda não é crime no Brasil, que o esporte dê um passo, posicione-se, proíba e penalize o ato nos estádios. Que mais clubes tenham iniciativas similares às que tiveram o espanhol Rayo Vallecano e o alemão St. Pauli, que criaram camisas alusivas à causa LGBTT.

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Crédito: Reprodução/Internet

Que surjam mais bares mexicanos e novos sabores de paletas mexicanas. Que a importação e a apropriação cultural não passe disso.

2 comentários sobre “Xingar sim, oprimir não

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